Um olhar amplo e diverso no mundo das artes

A medida em que temas como diversidade e inclusão ganham relevância, instituições culturais começam a repensar suas estratégias e modelos de atuação

“As mulheres precisam estar nuas para entrar no Museu de Arte de São Paulo?” Guerrilla Girls, 2017. 

Em setembro de 2017, o MASP inaugurou uma mostra retrospectiva das Guerrilla Girls, importante coletivo estadunidense que, em suas próprias palavras, “usam fatos, humor e imagens ultrajantes para expor os preconceitos étnicos e de gênero, bem como a corrupção na política, na arte, no cinema e na cultura pop”. O grupo de artistas anônimas, conhecido por usar máscaras de gorila em suas aparições públicas, foi constituído em 1985 em resposta a uma exposição de arte contemporânea realizada no MoMA de Nova Iorque, que incluía um total de 165 artistas, dos quais apenas 13 eram mulheres. Em um de seus trabalhos mais icónicos de 1989, “As mulheres precisam estar nuas para entrar no Metropolitan Museum?”, o coletivo aborda o contraste entre o pequeno número de obras de artistas mulheres e o grande número de nus femininos em exibição no museu estadunidense naquele momento. Este trabalho, refeito para a exposição do MASP e hoje em exposição nos cavaletes de vidro do acervo do museu, trazia este mesmo questionamento para a instituição paulistana, denunciando assim, a falta de diversidade em nossas organizações culturais e colocando a questão da inclusão no centro do debate.

Nos últimos anos, o MASP tem sido um importante protagonista no debate sobre diversidade e inclusão em nossas instituições culturais. Sua programação vem apresentando artistas fora do cânone tradicional – mulheres, negros, indígenas, autodidatas – e tratando temas relacionados a feminismo, sexualidade e raça. A exposição Histórias Afro-Atlânticas, de 2018, feita em parceria com o Instituto Tomie Ohtake, colocou em grande evidência a importância da produção de artistas negros, ganhando enorme visibilidade inclusive no âmbito internacional, tendo sido eleita pelo New York Times como a melhor exposição do ano. O museu vem também buscando ampliar a diversidade entre seus colaboradores, sendo o primeiro a contratar uma curadora de origem indígena, fato que ganhou destaque ao redor do mundo.

O movimento do museu brasileiro não é um fato isolado. Na medida em que temas relacionados à diversidade e inclusão ganham relevância em nossas sociedades, instituições culturais ao redor do mundo começam a repensar suas estratégias e modelos de atuação. O MoMA de São Francisco recentemente vendeu uma obra de Mark Rothko, pintor abstrato estadunidense da década de 1950, por USD 50 milhões de dólares para adquirir um conjunto de obras de artistas mulheres e de artistas integrantes das minorias étnico-raciais no país. Em um movimento similar, o Everson Museum de Siracusa se desfez de um trabalho do período áureo de outro icônico artista estadunidense, Jackson Pollock, para adquirir “obras de artistas de cor, artistas mulheres e outros artistas marginalizados e pouco representados em sua coleção”. Ao reabrirem seus espaços expositivos após a pandemia, tanto o MoMA em Nova Iorque como a Tate em Londres firmaram compromissos públicos de abraçar uma programação mais diversa e inclusiva, afastando-se da narrativa monolítica e eurocêntrica que tradicionalmente marcaram suas programações e mostras de acervo. 

No Brasil, artistas mulheres já ocupam há muito tempo um espaço central na produção artística moderna e contemporânea. Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Djanira da Motta e Silva, Maria Auxiliadora, Maria Martins, Lygia Clark, Lygia Pape, Mira Schendel, Adriana Varejão, Beatriz Milhazes, Jac Leirner, Sonia Gomes, Rivane Neuenschwander – nenhuma delas fica aquém, seja em prestígio, reconhecimento ou valor de mercado quando comparadas a seus pares masculinos. Porém, nosso circuito artístico tradicionalmente apresentou pouca abertura para abraçar minorias e artistas fora do cânone tradicional. Este não é mais o caso e, além do MASP, outras instituições públicas, como a Pinacoteca do Estado, estão em busca de maior diversidade, como evidencia a aquisição em 2019 por meio do Programa de Patronos da instituição, de diversos trabalhos de artistas indígenas. Basta ver que neste exato momento na cidade de São Paulo, a mostra da Bienal de São Paulo traz uma importante apresentação do artista indígena Jaider Esbell e a Pinacoteca do Estado de São Paulo apresentou recentemente exposição Véxoa, dedicada à produção indígena contemporânea, com 23 artistas de diferentes regiões do país.

A diversidade e a inclusão também avançam no circuito comercial e de colecionismo. A Mendes Wood DM, por exemplo, é uma galeria que tem se destacado pela pluralidade de seus artistas, projetando nomes como Sonia Gomes, Paulo Nazareth, Antonio Obá e Rosana Paulino. O artista Maxwell Alexandre, representado pela galeria carioca A Gentil Carioca, que em sua obra trata da questão da negritude e do entorno social nas favelas cariocas, apresenta atualmente uma exposição individual na filial londrina da prestigiosa galeria David Zwirner. Também há em andamento um importante resgate de artistas autoditadas, que até pouco permaneciam à margem do circuito institucional, como Amadeu Lorenzato, Agnaldo, Conceição dos Bugres e Miriam (atualmente personagem de mostra na Almeida e Dale Galeria). A Galeria Estação vem, em especial, exercendo importante papel na divulgação de artistas de tradições mais populares. Além disso, despontaram recentemente novas galerias, focadas no apoio a artistas com perfis diversos. A 01.01 Art Platform foca em artistas afrodiaspóricos. O Nacional Trovoa ambiciona enquanto coletivo de mulheres racializadas “evidenciar nossas produções não hegemônicas que derivam de intersecções raciais passando por indígenas, negras e asiáticas.” Recentemente a galeria paulista Kogan Amaro lançou um manifesto público no qual se compromete a reduzir, ao longo dos próximos 3 anos, as diferenças étnicas no corpo de artistas da galeria. 

A SP-Arte, festival internacional de arte criado em 2005, por sua vez, tem sido pioneira no apoio à maior diversidade no nosso circuito das artes e foi uma das primeiras no mundo a romper a barreira histórica das tradicionais feiras de arte que só admitem como expositores galerias de arte moderna e contemporânea. A partir de 2010, a Feira passou a ter em seu line-up galerias dedicadas à arte popular, como a Galeria Estacão, à street art como a Choque Cultural e, recentemente em 2020, coletivos independentes e galerias dedicadas a artistas negros da diáspora africana, como a 01.01. Art Platform, o Nacional Trovoa, a HOA e o coletivo de fotógrafas MFON, de Nova York.

Por fim, colecionadores têm respondido de forma muito positiva, abraçando com entusiasmo este movimento de ampliação do olhar. As coleções de forma geral estão se tornando mais diversas. Além disso, começam a surgir importantes coleções dedicadas exclusivamente a artistas mulheres, a artistas negros e artistas indígenas, assim como coleções focadas em abordar temas específicos como questões de gênero ou com foco político.

Em um país diverso como o Brasil, onde mais metade da população não é branca, com fortes ligações com diversas nações do continente africano, grande legado de fluxos migratórios, enorme variedade de povos indígenas e um amplo leque de culturas regionais, valores como diversidade e inclusão são fundamentais. Assim, esta abertura do olhar no mundo das artes é não só bem-vinda como essencial para o desenvolvimento e o reconhecimento de nossa produção artística e da nossa cultura. A diversidade é bem vinda e necessária!

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