Sequelas coronavírus: a recuperação do bom xibom, xibom, bombom

A concentração de renda vinha piorando nas últimas quatro décadas no mundo inteiro, e o Brasil seguia como líder nesse quesito

Para quem acompanha minha coluna, no texto de junho alertei que as sequelas do coronavírus seriam piores para o Brasil. Na coluna deste mês, alerto que além de sequelas piores, a pandemia deve piorar o já agravado quadro de desigualdade socioeconômica no nosso país. Vale mencionar que a concentração de renda vinha piorando nas últimas quatro décadas no mundo inteiro, e o Brasil seguia como líder nesse quesito: quase 1/3 de todas as riquezas do país está nas mãos de 1% da população.

E nesse cenário desigual, enfrentamos agora uma recessão econômica – uma sra Recessão Econômica, na verdade. O segundo trimestre do ano, deve ter sido o fundo do poço, os dados vêm mostrando isso, ao ponto que a expectativa dos economistas é que devemos ver um encolhimento do país na ordem de 10% no trimestre. Por consequência, o mercado de trabalho amarga o fechamento de 7,9 milhões de postos de trabalho no trimestre encerrado em maio em relação ao mesmo período de 2019.

A discussão agora está em: como sairemos dessa. Como voltaremos à vida de forma segura, dado que não há remédio e nem vacina para a covid-19? E como será essa recuperação? Qual formato? Daí vêm aquelas explicações de sopa de letrinhas, V, L, W e por aí vai.

O mais novo item desse alfabeto é a letra K, que vem cercada de reflexões importantes a fazer. Uma “recuperação em K” implica em uma queda da economia pronunciada, seguida de uma recuperação, de um crescimento da “parte de cima” da sociedade, mas com continuidade de queda da “parte mais baixa”, da classe mais desfavorecida. E daí, meus colegas, lembro aqui de um “clássico” popular do final dos anos 90 que já dizia que “… situação precária, onde o rico fica cada vez mais rico e o pobre cada vez mais pobre… e o motivo todo mundo já conhece … é que o de cima sobe e o de baixo desce”.

Explico aqui como acredito que a letra K pode ser dar: lembrem-se de que essa crise afeta principalmente o setor de serviços (que equivale a 70% do PIB): o cabelereiro que não pode atender, o bar que fechou, a massagista que parou de trabalhar, e o setor de turismo e entretenimento que congelou. Embora tenhamos visto discursos incansáveis e bandeiras altruístas de Instagram de continuar a pagar a massagista, a manicure, e a diarista, mesmo não usando os seus serviços, sabemos que isso não é sustentável no longo prazo. Seja porque muitos foram demitidos ou tiveram salários cortados (conforme medida corretamente aprovada pelo governo em flexibilizar o contrato de trabalho), seja porque, salvo exceções, muitos falam “um tico a mais” de suas verdadeiras ações.

Assim, o setor de serviços, que tem 70% do seu quadro de pessoas sem carteira assinada, tem sofrido, e muito, durante o isolamento social. Pensem comigo, dado o isolamento, muitas pessoas que trabalham no setor de serviços e que são informais (cabelereiros, ambulantes, etc.) têm sua renda, ao menos, diminuída.

No mesmo raciocínio, as pequenas e médias empresas que tiveram que diminuir produção por conta de uma demanda menor, têm mais dificuldades de conseguir crédito nos bancos, dado o histórico desse segmento em inadimplência. Muitas empresas, portanto, podem e vão fechar suas portas.

Por outro lado, os trabalhadores formais e as grandes empresas conseguem, minimamente, a manutenção de suas receitas ou adquirem crédito mais fácil. Assim, a desigualdade entres esses dois grupos deve, em alguma medida, aumentar.

As pessoas que foram demitidas podem ter dificuldades de se realocar nesse cenário. Devido à rigidez das leis trabalhistas no nosso país, a decisão de recontratar, por partes dos empresários, pode ser postergada. O empresário precisa estar confiante em uma retomada, pois ainda é caro contratar no Brasil. Além disso, quanto maior o número de desempregados, menor o salário de contratação, ou seja, o poder de barganha é menor. Bom xibom, xibom, bombom…

Diante de tudo isso, o governo tem tentado algum respaldo via medidas fiscais (exemplo do auxílio-emergencial de R$ 600/mês ou a tentativa de crédito fácil a pequenas e médias empresas). Porém não houve alcance para 100% dos necessitados, seja por um problema de eficiência do governo, seja por uma limitação fiscal do Brasil, que já não tinha seu balanço fiscal muito saudável.

Convenhamos… sabemos que muitas vezes R$ 600 não são suficientes para sanar todas as necessidades de uma família. Uma amiga, educadora financeira, certa vez foi questionada sobre o que as pessoas deveriam fazer com o valor oferecido pelo governo. Sua resposta foi “comprem comida!”. Acho que vocês me entenderam. Assim, o principal reflexo dessa pandemia será exacerbar a desigualdade social por aqui.

Solução para amenizar? O Banco Central já adotou uma política monetária bastante expansionistas, trazendo as taxas de juros para o menor patamar histórico. Mas, as políticas públicas serão ainda mais vitais se uma recuperação em K se confirmar: uma reorganização política para ampliar a viabilidade de reformas (administrativa, política, trabalhista, tributária) e uma agenda de privatizações, prepararia o Brasil para melhorar o ambiente de negócios, aumentar a confiança dos agentes e, por consequência, os empregos. E claro… bagunças e crise políticas não ajudam em nada essa cadeia hereditária.

Fernanda Consorte

Economista-chefe do Banco Ourinvest

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