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Queda na taxa de câmbio? Até quando?

O real se valorizou sim, mas o sol peruano, a rupia indonesiana e até a rupia indiana tiveram desempenho melhor que o real

Por: Fernanda Consorte*

A taxa de câmbio é, sem dúvida, a variável mais difícil de se estimar no mundo econômico. Já falei várias vezes, o sujeito que tiver muita convicção em sua projeção para o câmbio, desconfie. Contudo sua dificuldade é altamente relacionada a sua importância. Afinal, a taxa de câmbio de um país é mais do que um preço entre termos de troca de dois países, nela está todo o risco embutido e expressa o quão atrativo é aquele país para o mundo.

Os grandes fatores explicativos do patamar de uma taxa de câmbio sobretudo em países emergentes são, a meu ver, a disposição de estrangeiros de deter ativos daquele país (e aqui leia ativos tanto para investimentos financeiros de curto prazo como para investimentos longos em companhias), e a força global do dólar americano. O primeiro tende a ser proporcional ao cenário conjuntural doméstico; ora, quanto mais bonita a história que o país emergente contar, mais chances de agafanhar a liquidez do mundo, e o inverso é bastante verdadeiro. O segundo item pode ser medido pelo diferencial de juros. Ou seja, uma forte e rápida recuperação nos EUA, que sugira possíveis pressões inflacionárias, pode gerar necessidade de aumento de juros; um cenário em que temos maior retorno nos ativos da maior potência do mundo, chama todo o fluxo de capital para lá.  

Olhando as últimas semanas, tivemos uma apreciação significativa do real (em torno de 20 centavos, chegando a casa dos US$/R$5,20) provavelmente alimentada pelo sentimento de otimismo com o cenário internacional e, também, com a resiliência da atividade econômica brasileira, que mesmo enfrentando o pior momento da pandemia se fez de forte e seguiu em relativa expansão/queda moderada. Além de, claro, uma ajuda do Banco Central brasileiro que, incomodado com a inflação, segue em ciclo de alta de juros.

Mas... outras moedas emergentes se valorizaram mais. Vejam, na primeira quinzena de maio, o real se valorizou sim, conforme mencionado acima, mas o sol peruano, a rupia indonesiana, o rands da África do Sul, o peso filipino, e até a rupia indiana (sim, a Índia marcando recordes de mortes na pandemia) tiveram desempenho melhor que o real. 

Assim, considerando a real melhora do cenário externo conforme a vacinação avança em países desenvolvidos, o fator 1 ainda pesa bastante na taxa de câmbio quando se pensa em onde alocar seu capital. Além disso, vale lembrar que mesmo com a recente queda da taxa de câmbio brasileira, o nível ainda é abissalmente depreciado, caso contrário imagino que os brasileiros seriam os primeiros da fila do turismo da vacina... (eu seria). O que quero dizer é que a combinação de postura do presidente Bolsonaro “não muito ativa” no combate à pandemia, a CPI da Covid, o desmatamento da Amazônia, a ausência de reformas e o cenário fiscal, mais do que frágil, impendem que o Brasil seja uma aposta para investidores trazendo capital para cá.

Excluindo esses “detalhes” do retrato Brasil, acredito que a taxa de câmbio estaria em patamar muito mais baixo – e aceitável. Olhando para frente, mesmo com avanços na vacinação e espaço para novas rodadas de apreciação cambial, ainda sim, teremos travas conjunturais que vão impedir um movimento constante de queda da taxa de câmbio. E, não querendo desanimar, 2022 é ano de eleições presidenciais, período que historicamente há depreciação na taxa de câmbio. Mas falamos disso outro dia.

*Fernanda Consorte é economista-Chefe do Banco Ourinvest

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