Por que as sequelas do coronavírus serão piores no Brasil

O país caminha para um cenário recessivo pior do que o dos países que também foram epicentro do coronavírus

Amigo leitor, creio que este meu texto precisaria de classificação indicativa: “essa obra pode trazer conteúdo pessimista e não é recomendada para quem sofre de ansiedade ou medo do futuro”.  Isto posto, cá estamos iniciando junho e encarando os cenários pessimistas que a maioria das instituições financeiras traçaram no início desta pandemia (incluo o meu, do Banco Ourinvest).

Infelizmente, o Brasil após quase 3 meses da adoção de medidas de isolamento social contra a disseminação do coronavírus, está no topo do ranking de número de casos, só atrás dos EUA. Verdade que quando ajustamos pela população, o Brasil cai algumas posições, ficando em 5º lugar, atrás de EUA, Espanha, Reino Unido e Itália. Porém o que mais me assusta é que enquanto esses “colegas” já estão com casos em franca desaceleração, o Brasil está, no melhor dos casos, começando a se estabilizar.

Assim, quanto pior a situação pandêmica, maior o período de isolamento social requerido e, portanto, maiores os danos à economia. Considerando que o isolamento social se estenda até final de junho (encabeçado por São Paulo que representa 30% do PIB e é o epicentro da doença no país) e que o país volte a ter suas atividades rodando por completo somente em setembro, estimo uma recessão econômica em 2020 da ordem de ~9%. No mesmo sentido, as estimativas do mercado, segundo a pesquisa Focus do Banco Central, sugerem encolhimento da economia de mais 6% nesse ano… ou seja, o pior desempenho histórico, com ordem de grandeza de recessão parecido com o que acontece em períodos de guerra.

O fato que divido com muito pesar com vocês, meus amigos, é que o Brasil caminha para um cenário recessivo pior do que o dos nossos amigos que também foram epicentro da doença em algum momento da crise coronavírus. E aqui listo alguns motivos para isso:

1.  O Brasil já estava com um cenário econômico enfraquecido. Sim, a propaganda de recuperação econômica era falsa ou, ao menos, exageradamente otimista. O PIB de 2019 já não havia sido “lá essas coisas” e cresceu apenas 1,1%. E no primeiro trimestre deste ano, que pouco foi acometido pela pandemia – ok, já havia um temor, já havia uma queda demanda internacional e houve uns 15 dias de isolamento –, mas daí a cair 1,5% ante o trimestre anterior, ou seja, cerca -6% anualizados, me parece um quadro bastante fragilizado.

2. Possibilidade de um isolamento maior que “pares epicentricos”. Se a curva de novos casos e mortes não se estabilizar e cair, haverá a necessidade de seguirmos em isolamento social mais do que os 2,5/3 meses que nossos amigos viveram. Pensem num quadro que causa ansiedade…

3. Notícias alarmistas e sensacionalistas não aquietam corações e, principalmente, não melhoram a confiança dos agentes. Devemos nos ater aos fatos, mas há quem os floreie. Confiança já era a base para a retomada do crescimento do Brasil, a queda vertiginosa dela observada em abril e maio, faz com que a retomada da economia pós-isolamento social seja ainda mais devagar. Pensem comigo, todos nós estaremos com medo de irmos as ruas, de mandarmos nossos filhos às escolas, de pegarmos transporte público. A situação de pandemia por si só já diminui a confiança. Notícias alarmistas são um desserviço e derrubam ainda mais a confiança.

4. Para ajudar, no meio de uma crise sanitária-econômica, o Brasil tinha também que ter uma crise política para dar uma apimentada no cenário. Há muito tempo, os mais centrados clamam por cooperação e coordenação entre poderes para vencermos essa pandemia. A queda de braço que estamos vivendo (esfera federal e estadual, Governo e Congresso, Governo e STF, Governo e… Governo) não só tiram o foco do combate à pandemia como, também, afugenta investidores.

5. A ausência de plano e de estratégia pelos governantes me causa ainda mais inquietação. Claro que há a democracia, mas lembra da parte da cooperação e da coordenação? Então, está faltando, e muito. O isolamento social é requerido, já entendemos, aceitamos e concordamos com isso. Mas há uma necessidade vital de plano de saída de forma organizada. Não informações jogadas, sendo “refaladas e recontadas” conforme o administrador. Isso também abala a famigerada confiança dos agentes.

A quem chegou até aqui, entrego meus ouvidos e ombros para consolo por conta de um cenário tão ruim que enfrentamos; mas também acredito no poder da comunicação e da democracia. Precisamos exigir a cooperação e a coordenação dos governantes para sairmos dessa, amenizando, ao máximo, o impacto da já bastante abalada confiança. Ainda quero morar num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza.

Fernanda Consorte é Economista-chefe do Banco Ourinvest

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