A cara de 2021... chega 2022?

"Enxergo no Brasil o seguinte diagnóstico: a doença crônica de falta de investimentos que nos impede de crescer consistentemente e criar espaço para aumentar o potencial do Brasil"

2021 mal começou e já estou a me perguntar quando chegará 2022. Embora pareça um caso claro de ansiedade, trata-se na verdade de um caso de descrença no presente. Eu tinha muita esperança com a vacina e ela chegou, mas não a tempo de controlar a segunda onda da doença no País, e não a tempo de mitigar egos políticos e suas decisões para o próprio umbigo.

Embora estejamos vendo insuficiência de vacina em relação ao alastre da doença no mundo todo, aqui no Brasil esse assunto tem sido vergonhoso, pois tem se tratado de quem irá ganhar as eleições presidenciais em 2022. E é nessa tônica que iniciamos 2021.

Enxergo no Brasil o seguinte diagnóstico: a doença crônica de falta de investimentos que nos impede de crescer consistentemente e criar espaço para aumentar o potencial do Brasil. E um machucado de enfraquecimento das contas fiscais. O problema é que o machucado pode crescer (e tem crescido) a ponto de potencializar a doença crônica. A ponto de até matar o paciente. O contrário também é verdadeiro, trabalhar melhor as contas públicas pode atrair investimentos, pode dar melhor capacidade de crescimento econômico.

E aí que as coisas se juntam. Como já se diz no nome, contas públicas são decisões exclusivas dos governantes, os mesmos que estão discutindo vacina (de eficácia ou necessidade, até a falta completa de organização da compra da escassa oferta do antídoto). E pior, o descaso com a pandemia vai custar ainda mais caro, porque a necessidade de novas medidas de isolamento social no primeiro trimestre de 2021, vai apunhalar a economia, piorando as condições sociais já abaladas, e, claro, pedindo novos programas sociais para atender os atingidos. Ou seja, mais gastos aumentando a feriada das contas fiscais.

Vamos nos situar onde estamos: o resultado primário do setor público consolidado em 2020 foi deficitário em R$703,0 bilhões (9,49% do PIB), ante déficit de R$61,9 bilhões (0,84% do PIB) em 2019. No mesmo sentido, a dívida bruta do governo geral, alcançou R$6.615,8 bilhões em dezembro, equivalente a 89,3% do PIB, um aumento de 15 pontos percentuais em relação ao resultado de 2019.

Como sempre digo, não estou aqui para dizer que o governo não tem que dar mais auxílio- emergencial. Diante das circunstâncias, ele deve isso ao povo. Só estou salientando que não temos esse dinheiro e, até o momento, não vi nenhuma medida clara sobre de onde ajustaremos para conseguir esse recurso, de onde vamos cortar.

E, com isso, a dúvida que mais me vem a cabeça é como com esse cenário conseguiremos chegar a um crescimento de 3,5% em 2021? Segundo a pesquisa Focus do BCB (Banco Central do Brasil), a mediana das estimativas dos analistas do mercado está nesses 3,5% há bastante tempo. Claro que há efeito estatístico, pois a base de 2020 é muito baixa. Porém, acho que teremos surpresas negativas nos números do primeiro trimestre, revertendo esse otimismo. E, acrescento que num ano em que veremos uma recessão na ordem de -4,5%, crescer 3,5% não me parece uma explosão. Outros países que tiveram recessão em 2020, devem mostrar números muito mais fortes, sugerindo sim uma recuperação. 

Outra estimativa que coloco em judice é a inflação. Hoje, o mercado espera inflação de 3,6% em 2021, porém vimos o “estrago” que o auxílio-emergencial fez na inflação de 2020, que deve não só deve gerar inércia para 2021, como possivelmente outra leva de estímulos fiscais. Verdade que o Banco Central deve subir os juros já nas próximas reuniões, mas não sei se o suficiente para reverter a história de 2021, mesmo porque outro componente vilão – a taxa de câmbio – deverá seguir pressionada na conjuntura abalada.

Ou seja, em 2021, teremos de novo crescimento baixo com inflação incomodando. Assim, pensando no cenário do ano, com números ainda bem ruins, mesmo com o final da pandemia se avizinhando, quero que chegue logo 2022. Cansei de brincar de país em crise e mal governado. 

*Fernanda Consorte – Economista-chefe do Banco Ourinvest | @fernanda_consorte

 

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