Jeff Bezos não é mais CEO da Amazon: como suceder um líder carismático?

Não é uma tarefa fácil e ao longo dos próximos anos o desempenho do novo CEO certamente será estudado, para o bem e para o mal

O fundador da Amazon, Jeff Bezos, anunciou nesta semana que deixará o posto de CEO da empresa até o terceiro trimestre deste ano. Ele segue como presidente do Conselho da companhia e se dedicará a novas iniciativas. A responsabilidade de diretor executivo ficará com Andy Jassy, atual head da área de computação em nuvem e infraestrutura tecnológica da Amazon, a AWS. A notícia, apesar de bombástica, veio sem muito clima de suspense, em um email para os funcionários (depois reproduzido no blog da empresa). 

Bezos sempre foi “o cara” da Amazon, transformando uma pequena loja de livros online em uma gigante com uma das marcas mais valiosas do mundo. Por mais que o fundador se mantenha com um papel relevante dentro da empresa, a transição levanta uma série de dúvidas. A primeira e mais óbvia é: como será a Amazon sem a presença diária de Bezos?

O desafio que se impõe a Andy Jassy (e à empresa como um todo) é suceder um líder extremamente carismático e executor que, ao longo de décadas, se tornou sinônimo do negócio que conduzia. 

Não é uma tarefa fácil e ao longo dos próximos anos o desempenho do novo CEO certamente será estudado, para o bem e para o mal, em muitos livros e salas de aula, como já aconteceu com nomes como Jeff Immelt (sucessor do lendário Jack Welch no comando da GE) e Sundar Pichai (que recebeu a missão dupla de substituir os fundadores do Google, Larry Page e Sergey Brin).

Por mais difícil que seja a pressão de substituir alguém tão emblemático quanto Bezos, Jassy terá muitos bons exemplos em que se inspirar. Tim Cook, por exemplo, conseguiu sair da sombra de Jobs e imprimiu um estilo próprio na gestão e até no portfólio de produtos da Apple (receitas recorrentes, que sempre foram um grande desafio para a empresa, hoje estão bem mais consolidadas, graças a serviços como Apple TV e Apple Music).

Outro caso de transição bem sucedida é a chegada de Satya Nadella ao comando da Microsoft. Nadella não teve que substituir diretamente Bill Gates, o fundador mais emblemático da companhia, mas tinha um grande desafio pela frente depois que a gestão de Steve Ballmer (esse sim sucessor de Gates) não conseguiu fazer a Microsoft modernizar suas ofertas.

Nadella repensou a estrutura organizacional e as linhas de negócio da empresa. Como resultado, a empresa ganhou relevância em novas áreas (e com a Azure, seu serviço de nuvem, se tornou uma das principais concorrentes da AWS) e tirou muito mais proveito de seu ecossistema de soluções (algo que era mais frequente nos primeiros anos de Gates, apesar de sempre acompanhado de uma boa dose de polêmica e um punhado processos em organizações antitruste). A criação do Teams (relembre aqui a análise que fizemos quando o Slack foi comprado pela Salesforce) é um bom exemplo. 

Em comum, os sucessores bem sucedidos em empresas comandadas por gente de personalidade forte equilibram um misto de respeito ao legado e aos princípios do antecessor, mas com um olhar atento às tendências de mercado e mudanças do futuro. Se apegar sem senso crítico ao estilo do fundador ou negar completamente a cultura da empresa costumam ser receitas certas para sucessões mal sucedidas - como mostra a primeira saída de Jobs da Apple (seguida das desastrosas gestões de John Sculley e Michael Spindler, que levaram a empresa à beira da falência). Mesmo Howard Schultz, então CEO da rede de cafeterias Starbucks, teve que voltar ao comando da empresa quando viu que ela estava saindo dos trilhos.

Pipeline de liderança

Evitar sobressaltos em um momento delicado como esse requer um trabalho de longo prazo. A escolha de Jassy certamente não foi feita do dia para a noite. 

O indiano Ram Charan, um dos gurus da administração moderna, cunhou o conceito de pipeline de liderança (curiosamente, anos depois Charan escreveu um livro em que mergulha exclusivamente no sistema de gestão da Amazon). Em sua teoria sobre o pipeline de lideranças, Charan fala sobre os estágios que alguém percorre ao longo da carreira antes de assumir os principais postos de comando em um negócio e sobre o papel de empresas e gestores em desenvolver este pipeline de forma ativa, entregando cada vez mais responsabilidades aos seus times para descobrir aqueles que estão aptos a dar os próximos passos.

Em 23 anos de carreira dentro da Amazon, Jassy passou por todas as etapas deste pipeline. Entrou na Amazon como gerente de marketing - numa época em que a companhia inteira tinha menos funcionários do que seu departamento de marketing atual - e foi abraçando novos projetos até que em 2003 se deparou com um mercado de alto potencial, o de computação em nuvem, e recebeu de Bezos a missão de liderar um time de 50 pessoas para criar um serviço para a Amazon neste setor. Hoje esse serviço é o principal provedor de infraestrutura tecnológica de todo o mundo (e tem uma lista de cliente que inclui órgãos de governo, como a CIA, e concorrentes diretos da Amazon em outros mercados, como a Netflix).

Na construção de seu pipeline de líderes, a Amazon analisa 14 aspectos determinantes para o crescimento de alguém dentro da empresa. A lista é baseada nos valores da Amazon e envolve aspectos como obsessão pelo cliente, frugalidade e “invente e simplifique”. 

O último desses 14 princípios de liderança é o “Entregue resultados”. Ao longo de uma carreira de mais de duas décadas na empresa, Jassy foi um dos destaques nesse quesito. A AWS, é responsável por 52% do lucro de 21 bilhões de dólares da Amazon e seu desenvolvimento foi fundamental para que a companhia se consolidasse como um player predominante não apenas no varejo, mas no mercado de tecnologia como um todo (a relevância é tanta que uma queda nos servidores da Amazon, como a que aconteceu no final de 2020, pode deixar sites, aplicativos, sistemas financeiros e até mesmo o metrô de Nova York fora do ar).

Outro fator que certamente contou para escolha de Jassy é o fato de ele ser tido pelos funcionários da Amazon como um dos executivos mais criativos da empresa. Isso facilitará que a companhia cumpra o pedido feito por Bezos no último parágrafo da carta enviada aos funcionários comunicando a mudanças: “Sigam inventando e não se desesperem quando as ideias parecerem loucas em um primeiro olhar”.

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