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CEO da WSL Latam, Ivan Martinho vê oportunidade para crescimento do Surf

Surf

O Brasil vive sua era de ouro no surf, é dono de quatro dos últimos seis mundiais, teve uma estreia de gala nas Olimpíadas com o ouro de Ítalo Ferreira e tem nomes como Mineirinho, Tatiana Weston, Medina, entre outros. Muito do grande sucesso, se dá por quem está por trás da entidade que dirige os atletas. O Esporte Executivo recebe Ivan Martinho, CEO da World Surf League (WSL) para a América Latina.

Ex-Fox e Traffic, o brasileiro é o grande responsável por comandar a região que está em pura ascensão na modalidade. E com ele, vem as ideias e a responsabilidade de manter esse sucesso. Na entrevista, Ivan, falou mais sobre o seu papel como CEO da WSL e das atribuições concedidas. Também explicou como estão aproveitando o momento dourado do esporte para alavancar e criar atrativos que façam o surfe atrair mais fãs na região; sobre o futuro do esporte – na América Latina; como lida sendo a região mais ‘pobre’ estruturalmente; futuros ídolos brasileiros e claro, sobre a criação de seu podcast. Eis o vídeo e, na sequência, a entrevista transcrita.

Vinicius Lordello: Você não foi contratado pra fazer o surfe brasileiro despontar. Você cuida da América Latina. Isso faz toda a diferença na sua cabeça e no seu trabalho, certo?

Você tem razão. A liga – que é privada – tem a matriz, que é um escritório que fica em Santa Mônica na Califórnia. Tem um grupo acionário e estabelecido como uma empresa privada qualquer. Temos, também, além da matriz, uma divisão do ponto de vista, de desenvolvimento de negócios, dividido em quatro grandes regiões. Então, a minha é a América Latina, o Brasil é a parte mais relevante do ponto de vista do negócio, por conta do sucesso que os atletas vêm fazendo. Nos outros países da América Latina, do México para baixo, eu que sou o responsável, tem outra pessoa que cuida da América do Norte e do Avaí, outra que cuida da Europa, África e Oriente Médio e o quarto que cuida de Austrália e da Ásia. Então nós cuidamos (nessas regiões) de tudo que é relativo ao negócio. A questão esportiva está concentrada na Califórnia, no que a gente chama de departamento de ‘tours incompetitions’, ou seja, não é da minha responsabilidade. Pontuação, juízes, ranking… essa questão esportiva está baseada na Califórnia. A gente faz esse papel de facilitação para os eventos regionais através de uma parte do meu time que cuida disso. Dentro das responsabilidades do escritório – para a região –, a gente fala de direitos de transmissão, patrocínio, licenciamento, promoção de eventos, relação com investidores, cidades e governos locais. Ou seja, é uma série diversa de tarefas que cada um desses quatro escritórios tem para garantir que tudo isso aconteça.

O seu trabalho é bem focado para os negócios, correto? O crescimento e a expansão… o ambiente esportivo fica à margem do seu trabalho prioritário.

O trabalho prioritário é relativo ao negócio e óbvio que a gente acaba se envolvendo nas questões do esporte. Porque, as questões são correlatas. A relação com os atletas, a geração de negócios para eles. Nós temos o interesse de ser um catalizador, de poder gerar negócios também através da relação com as marcas, assim por diante. Assessorar ou assistir a esses atletas quando necessário, não só na educação deles, e sim para construírem plataformas e serem produtos interessantes para as marcas. Como também apresentar e aproximar contatos. Afinal de contas é um ecossistema, se prosperar, todo mundo ganha. Então esse é o nosso papel.

Você fala em divisão de quatro profissionais responsáveis, cada um por sua região. Eu imagino que haja uma diferença, e na mesma proporção que há diferença, é um intercâmbio cultural muito importante nesse sentido, certo? Tem alguma uma prevalência histórica da América do Norte, a Oceania, Austrália... Europa, eventualmente, talvez, um pouco atrás. Não no negócio em si, mas na cultura. Esse intercâmbio existe, o quão isso é rico para vocês?

Existe muito, tem algo como uma rivalidade por um lado, e por outro, uma operação, rivalidade sob a ótica esportiva, cooperação sob a ótica de negócio. Então, a gente tem uma série de iniciativas de construir, por exemplo, uma relação entre Brasil e Portugal. Existem questões históricas dos dois países, existe uma simpatia entre os povos, porque não construir algo? Grande parte dos nossos atletas de ondas grandes que competem em Nazaré são brasileiros, os campeões, inclusive. Então, por que não criar? A gente tem pensado nisso, de como evoluir esse tipo de parceria de negócio, de relação entre a entre as regiões, do ponto de vista da concepção dos produtos para os fãs propriamente dito. Nós trabalhamos em conjunto, tem reunião todas as semanas, troca de informações, melhores práticas. Eventualmente, marcas que a gente tenha um patrocinador local na Austrália, que também está no Brasil e que a gente possa fazer contato com a pessoa responsável, o contrário também é verdadeiro. Exemplo, uma marca brasileira que tem presença na Austrália, a gente não havia fechado o negócio para os eventos no Brasil, não tínhamos chegado a um modelo de negócio viável, mas na Austrália eles tinham uma operação, um apetite e deu certo. Acabaram ou através de indicação nossa – a marca é uma marca originalmente brasileira, mas que está na Austrália –, acabou fechando um patrocínio com a turma da Austrália, curiosamente até antes do que a gente. Então existe sim essa interação do ponto de vista de negócio o tempo todo e no fundo nós somos um tour único, que vai rodando todas as etapas. Então, os atletas, em cada um dos níveis, no Latan, no QS ou mesmo no Pro Júnior. A categoria do Shortboard e também no Big Way. Então, a cooperação ela se faz necessária para que a gente possa contar a mesma história. A gente trabalha para o desenvolvimento do esporte e do negócio na região, e não somente no Brasil.

O Brasil está ganhando tudo. Podia ser Argentina, Uruguai… mas um país que está sob sua responsabilidade, vem ganhando bem nos últimos tempos as mais diversas competições. Então, o negócio como um todo olha para você e fala: “O Ivan está fazendo alguma coisa diferente”. Ou eles entendem que é uma cultura da modalidade no país? Tem um trabalho seu de propiciar, de estrutura, de negócio e de alavancagem da visibilidade. Mas, isso de alguma forma é quase um círculo. E tem também tem a cultura do país. Como eles olham e como que você olha essa possível comparação?

Para nós é um é uma oportunidade gigantesca. Estamos em um país de uma cultura onde aquele atleta que ganha nesse esporte (o surfe) tem um espaço maior, gera mais assunto, ocupa lugares na mídia. Esse esporte foi dominado por australianos e americanos durante muitos anos, e nos últimos sete, tá sendo dominado por brasileiros e óbvio que temos o papel de aproveitar essa geração tão vencedora do surfe, pra fazer com que nós sejamos capazes de colocar o esporte em outro patamar de conhecimento e desejo. Acho que estamos conseguindo fazer isso e ao mesmo tempo, dentro do que a gente fala de base, garantir que preferencialmente as próximas gerações possam continuar essa predominância dentro da nossa região. Então, nesse aspecto, cada região, obviamente, tem essas estratégias, é uma concorrência saudável, mas do ponto de vista de negócio, absolutamente colaborativo. O que nós temos é uma concorrência que é aberta, pelo número de eventos em cada uma das regiões. Eles (os eventos) tem um cálculo independente sobre o negócio do evento efetivamente. E esses eventos precisam ser viáveis do ponto de vista financeiro, preferencialmente lucrativos. E tem determinado número de datas, logo, muitas vezes, eu estou disputando uma data do Champion Tip Tour com uma cidade na Nova Zelândia, ou na França que também tenha um interesse de receber esse evento. Então, como que nós conseguimos viabilizar para uma tour que faça sentido do ponto de vista de calendário e do ponto de vista de ondas. Não adianta ter um que só tenha ondas para a direita ou só para a esquerda. Tem que haver um mix. Logo, na medida do possível a gente tenta fazer o mais equilibrado possível para garantir que todos os atletas possam ter a igualdade de condições para competir nas ondas. E fazer com que o tour, logisticamente, também faça sentido.

Quando você chegou tinha esse desafio para a região? Porque estruturalmente a América do Norte tem mais dinheiro, a Europa também, a Oceania pela Austrália e a Ásia, que, não necessariamente tem mais dinheiro, mas tem mais estrutura. Então, você tinha um desafio de pegar teoricamente a região que é financeiramente mais pobre, porém, em contrapartida, que tem uma capacidade de engajamento muito interessante, inclusive, naquilo que envolve o esporte, a paixão… Também era esse o desafio? E se era, você logrou êxito?

Esse é – e continua sendo – um dos principais desafios. De construção com base sólida de sustentabilidade e autossuficiência financeira. Então, o esporte já tinha passado pela fase de investimento. O investidor tinha passado por essa fase (de investimento) e realmente precisava de alguém que tivesse essa visão de construção de negócio efetivamente. Se, por um lado existe uma moeda mais valorizada em outros países, e nós estamos aqui na América Latina, no Brasil, grande parte do negócio vai ser com a moeda mais desvalorizada. Com parte dos custos de um evento em dólar, a premiação, por exemplo, é em dólar. Alguns custos de transmissão são também em dólar, ou seja, se você multiplicar acima de cinco, você vai ver o quanto isso impacta a nossa planilha de custos. Lembrando nós não vendemos ingressos, eventos de praia não tem ticket, então vamos com patrocínios, direitos de transmissão e hospitalidade.

Uma transmissão é um pouco mais complexa do que um jogo de vôlei, por exemplo. A transmissão do céu é muito mais difícil...

Do ponto de vista de programação e de estrutura, porque normalmente estamos em lugares remotos. Nós fizemos uma transmissão na etapa do México, em lugar que se chama Barra de La Cruz. É um distrito do estado, não tem nem sinal de celular, é um vilarejo que moram duas mil pessoas. Tivemos que instalar tudo… é um paraíso de ondas, inexplorado. Então, tivemos que fazer toda essa instalação temporária e com o risco de não funcionar na hora da transmissão. Mas voltando ao ponto da viabilidade financeira. Nós temos trabalhado nesse aspecto do reposicionamento do produto, para que ele possa ser interessante também para marcas não endêmicas. O surfe profissional começou no mundo das marcas endêmicas: Rip Carl, Billabong e Quick Silver. Logo, começou aí – inclusive os eventos eram propriedades dessas marcas. Depois, quando começou a ser gerenciado por nós, começou a se reposicionar para ampliar as histórias que nós poderíamos contar, que iam além da água, propriamente dito. Começamos a falar de sustentabilidade e outras diversas ações correlatas. Nosso esporte acontece nos oceanos, estragar as ondas é estragar o esporte junto. É uma é um misto de obrigações com legitimidade para falar desse assunto. Esse ‘lifestyle’  do surfe, que tanto representa e vai além do esporte propriamente dito, tudo isso embalado e contado através de histórias em todos os canais da WSL capazes de atrair marcas diferentes. Trouxemos Corona, Neston, Localiza, Oi, Jipe… ou seja, marcas que poderiam escolher qualquer outra plataforma de comunicação para falar, e ao se identificarem com as mensagens do surf escolheram a WSL, e também alguns atletas pra construir as suas histórias. Então é desse jeito que a gente vai tirando um pouco a diferença entre a valorização da moeda.

Você tem um cenário – pelo menos atual – que beira à perfeição. Porque, trazer marcas que transcendem o universo do surfe, mostra que existe um interesse… tem uma modalidade campeã. O que mais você pode querer pra cravar que esse é o momento perfeito? Ou tem alguma coisa precisa mudar, a médio ou longo prazo?

Nós temos que saber aproveitar o tamanho dessa oportunidade. O que eu me pergunto o tempo todo é se estamos fazendo o nosso trabalho certo para aproveitar essa oportunidade, e se do ponto de vista de negócio estamos sendo tão bons quanto os atletas brasileiros dentro da água. Acho que esse é o nosso desafio, de se questionar muitas vezes, com humildade de aprender com outros esportes. É o que você falou, uma combinação, imagina um esporte que, estreou nas Olimpíadas e já ganhou a medalha de ouro – com Ítalo Ferreira. Quais outros esportes brasileiros que praticamente todos os atletas falam inglês? Raríssimo! Os nossos atletas, quase todos eles falam inglês, eles são entrevistados após cada bateria, isso é excelente do ponto de vista de expansão de um determinado esporte globalmente. Tem muito para fazer, não só nós, como também os próprios atletas. Temos um desafio importante em conjunto com eles.

Existe uma coisa que transcende a questão do momento que é a circunstância da sociedade, certo? A sociedade que você encontra para trabalhar de uma forma ativa há cinco anos, é completamente diferente da encontrada hoje. Se a gente fosse falar do princípio do que é NFT dez anos atrás, iam falar que somos loucos. Então, é preciso entender que tudo muda. Como o surfe olha para essa produção e acesso direto as pessoas? Porque vocês tem uma possibilidade de conversar diretamente com as pessoas, via redes sociais. Então, como é essa conversa com o público interessado?

O crescimento de qualquer esporte tem a ver com o alcance e também com frequência. O alcance se dá por boas histórias que você conta. Quando você tem canais próprios – que é o nosso caso –, temos o nosso próprio aplicativo e website, que inclusive, transmite as competições. Ou seja, conteúdo premium gratuito e também os canais de rede social. Mas, o nosso negócio existia sempre uma audiência e interesse muito grande quando a etapa estava acontecendo e depois uma grande queda de audiência, nós não temos mesa redonda (como o futebol) discutindo segunda, terça…  Não é igual. Quando você tem canais diretos, como as redes sociais, te permite entender o mais detalhe, os gostos e as preferências do seu fã. A partir daí você oferece ou cria mais conteúdos alinhados com aquilo que agrada. Nós explicamos lá sobre os picos de surfe, sobre os nomes das manobras, porque os juízes validam, com isso existem pessoas que passam a gostar, se interessar (pelo surfe). Nós falamos sobre exercício funcional ligado ao atleta, falar de música, sobre os astros e estrelas históricas da do mundo do surfe nacional e internacional. Vamos cobrir o treino deles para mostrar como estão se preparando pra determinada competição... ou seja veja quantas histórias podem ser criadas. Dentro nosso espectro de assuntos possíveis, é claro que não podemos fugir completamente do que é a nossa temática. Porque, senão nós não vamos ser reconhecidos pelos nossos fãs.

Vocês tem um momento ótimo pro Brasil, com a Tatiana no feminino, o Ítalo, Mineirinho, Medina no masculino.... Claro que você torce para que isso não acabe tão cedo. Mas, agora eu quero falar menos de você como gestor e mais para o imaginário das pessoas. Então, o Medina e Ítalo disputando… O quão importante é para que essas pessoas que não tenham a relação direta de quem é o atleta e não a modalidade? Fazer com que essas pessoas sejam fisgadas para o surfe  e não só pelos nomes dos atletas. Ao mesmo tempo que vocês tem uma oportunidade também tem essa dificuldade...

Eu gosto de citar o exemplo que não é brasileiro, mas sim, global que é a NBA. Eu comecei a gostar da NBA, do Michael Jordan, Larry Bird e assim por diante. Para mim, Michael Jordan era maior que a NBA… depois veio a geração do depois do Kobe Briant, Lebron James... Veja, as grandes estrelas criaram seus nomes, suas marcas e se eternizaram. Mas a NBA continuou lá. O surfe ainda está na primeira geração que mudou de patamar, que mudou o conhecimento do esporte na nossa região, por conta do trabalho e das conquistas que todos fizeram. Logo, no surf a gente tem sim o dever de começar desde já apresentar para o nosso fã a geração que vem aí. Então, o Mateus Herdy, o Lucas Vicente, Samuel Pupo e toda essa turma deverá ser os que vão estar nos representando daqui poucos anos. A sucessão de ídolos dentro – preferencialmente – da minha região. E que esse sucessor também tenha a mesma capacidade de criar, talvez não pelo mesmo motivo, mas crie o amor e esses motivos para que o esporte continue sendo desejado, observado e acompanhado. Então, o nosso papel é começar a contar desde já e dar espaço (e palco) para essa geração futura começar a aparecer desde. É uma história que começa agora, que já está sendo feita. Não é algo que a gente vai pensar depois que os atletas de hoje tiverem parado.

Sou entusiasta do seu trabalho e penso que tens trazido um olhar muito diferente ao surfe. E não é um trabalho instantâneo e justamente por isso é elogiável. Por fim, quero dizer que você começou agora um podcast, certo? Uma empreitada nova, também desbravando esse espaço de falar sobre o ambiente esportivo...

Claro, obrigado pelo espaço. Eu sou professor, gosto tanto desse assunto que eu trabalho, digo que sou privilegiado por trabalhar com marketing esportivo, com patrocínios, e essa temática que eu gosto tanto. E sempre notei que o conhecimento dentro do mercado publicitário e nas agências… existe um conhecimento muito grande do que é mídia online, offline, milhões de métricas de retorno, porém, não é igual quando se fala de patrocínios, que movimentam milhões de reais no Brasil e no mundo todo. E esse conhecimento não é equiparado ao que é de mídia tradicional. Então, a ideia do podcast vem daí. Tenho um grande amigo que também é do mercado, o Fábio Wollf, e a gente sempre discutia essa ideia, é muito mais como um hobby para nós dois, e acho que é um serviço ao mercado, uma forma que a gente acredita que pode contribuir. Principalmente, aumentando o conhecimento das pessoas sobre essa disciplina, que é o patrocínio. Não só através da nossa experiência, mas sobretudo da experiência daqueles que são os principais artistas, os atores dessa indústria, que são as marcas que investem.

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