O colapso do contexto

Como agir nessa nova realidade em que uma versão simplificada, parcial, deturpada e descontextualizada de nós mesmos pode se tornar alvo de julgamentos

Este ano sui generis que vivemos acelerou e consolidou novas formas de viver, interagir, trabalhar e socializar. Se antes a vida nos ambientes digitais já era uma dimensão indissociável da nossa vida ativa, em muitos casos ela se tornou o espaço primordial em que aprendemos, produzimos, trabalhamos, nos relacionamos, nos expressamos e revelamos nossa identidade.

Assim como nos espaços presenciais, nos espaços virtuais nossa vida também pode ser contada e lida como uma história, com a diferença de termos a ilusão de que ali temos a possibilidade de submetê-la a um cuidadoso trabalho de curadoria. Assim, muitos perfis, cuidadosamente construídos, filtrados, buscam revelar uma versão idealizada de nós mesmos.

Em outros casos, o espaço virtual parece a arena escolhida para dar vazão a extremismos, paixões, conspirações e reinvindicações em busca de um pertencimento comunitário, sem a intermediação da civilidade que fomos educados a praticar em nossas interações face-a-face. Em ambos os casos a vida virtual permite a ampliação do nosso espaço de influência e atuação social.

A imprevisibilidade e a irreversibilidade

Nós só começamos a tentar entender as consequências da digitalização dos nossos relacionamentos e vínculos na era das mídias sociais. Como nos revelam alguns mestres da tecnologia no importante documentário ‘O Dilema das Redes’, a nossa presunção de autonomia em relação ao que vimos e produzimos nas redes sociais, bem como sua influência em nossos hábitos e emoções, compete com a manipulação da nossa atenção por algoritmos que mal compreendemos e que parecem nos conhecer melhor do que conhecemos a nós mesmos.

À medida em que, por meio da internet, nós pagamos nossas contas, compramos, aprendemos, encontramos, reencontramos e brigamos, vamos deixando pegadas virtuais, elementos de uma história cujos desdobramentos desconhecemos.

Neste ambiente muito real do mundo virtual nós ignoramos as consequências finais das nossas ações, que desencadeiam não só reações, mas cadeias de reações tão poderosas, amplas e duradouras que jamais poderíamos ser capazes de controlar.

Não é surpresa que este ambiente reproduza as mesmas intolerâncias do mundo real, embora com novos contornos e um novo alcance. Só conseguimos compreender os seus mecanismos bem depois de sentir profundamente os seus efeitos.

O colapso das barreiras entre o pessoal e o profissional, o privado e o público só ampliam a exposição de cada um de nós ao julgamento e a manipulação de cada uma de nossas expressões. Consideremos o fenômeno do “cancelamento”.

Cada uma das nossas oportunidades profissionais poderá ser julgada à luz do histórico combinado do feed de nossas interações no Twitter, Facebook e Instagram, mesmo que algumas destas publicações tenham sido feitas há décadas, quando o consenso social era incomparavelmente diferente.

É o que tem sido descrito como o colapso do contexto: esta nova realidade em que talvez uma versão simplificada, parcial, deturpada e descontextualizada de nós mesmos pode se tornar alvo de julgamentos de consequências imprevisíveis.

Quais as probabilidades de um adolescente, nativo do ambiente digital, ativo nas redes sociais desde a infância, ter no início de sua vida profissional um histórico inatacável pelos parâmetros da próxima década?

Neste estranho mundo novo, o incentivo social favorece o julgamento ou o vitimismo, que parecem outorgar a quem julga ou a quem reage uma imunidade temporária na arena pública. Afinal, ao julgarmos apontamos para o outro e, quem sabe, nossas próprias falhas passem desapercebidas, até de nós mesmos?

Antes do advento da internet, nossos erros poderiam ser lembrados, por um tempo, pelas pessoas mais próximas de nós. Agora, perpetuados em nossas pegadas digitais, eles podem chegar a qualquer lugar do mundo, em qualquer momento de nossa existência.

“Você que inventou o pecado, esqueceu-se de inventar o perdão”. Chico Buarque, Apesar de Você

Estes dilemas, tecnologicamente ampliados, só poderão ser solucionados pela consciência humana. Não pelos nossos instintos retributivos, necessariamente, ou pela virtude dos juízes da internet. Não pelos incentivos ao exercício desta forma de poder implacável: o poder de julgar, de envergonhar, de cancelar. Talvez a nossa única esperança venha do reconhecimento de nossa fragilidade compartilhada.

Porque temos isto em comum, a perspectiva de viver indefinidamente definidos pelo nosso pior deslize. Afinal, cada um de nós, só consegue ver com clareza o alcance último de suas ações, ao olhar em retrospectiva. No momento imediato da ação, não conseguimos evitar desconhecer o que ignoramos e agimos, necessariamente dentro da matriz de incertezas e irreversibilidade que caracterizam a experiência humana.

Olhar para a história digital das pessoas com algum grau de compreensão, contextualização e uma certa predisposição ao perdão, talvez seja o nosso único antidoto de sobrevivência no mundo do cancelamento.

A única forma de resgatar a liberdade de ação, no mundo sem esquecimento da internet. A ação construtiva, não a reação destrutiva, é a matéria prima essencial do trabalho pelo qual interagimos com o mundo e forjamos a nossa identidade.

Talvez seja de nosso interesse substituir o julgamento pela curiosidade, a parcialidade pela contextualização, as certezas categóricas por alguma medida de dúvida. Como nos ensinou Hannah Arendt em sua palestra na Universidade de Chicago em 1964 sobre trabalho e ação, “não há autor ou criador que possa desfazer o que fez, se não gostar, ou quando as consequências forem desastrosas.

Assim como a única ferramenta de proteção contra a imprevisibilidade é a habilidade de fazer e cumprir promessas, só existe uma ferramenta para amenizar a irreversibilidade de nossas ações. Essa é a faculdade de perdoar.” Não que ela pudesse prever o mundo da internet naquela época, mas o que era verdade então, tornou-se urgente agora.

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