Você quer causar um impacto gigante? Entenda a tecnologia da ambição

Daniel Bilbao, fundador e presidente da startup Truora, é colunista da EXAME. Ele escreve sobre empreendedorismo, inovação e tecnologia

Esta coluna é direcionada ao seleto grupo de pessoas que têm necessidade de impacto. Uma necessidade tão grande que se torna óbvia para eles, suas famílias e amigos.

Não me refiro a quem quer ser famoso, refiro-me a quem quer deixar uma marca no mundo. À mulher ou ao homem que pensa: “quero fazer algo importante com a minha vida”. Essa pessoa hiper ambiciosa. Compartilhe isso com as pessoas que você sabe que se identificam com essa descrição, prometo que elas irão te agradecer.

Muito se fala sobre como a tecnologia tem transformado nossas vidas. Como Alex Torrenegra disse bem: “isso sempre aconteceu, porém, agora, associamos tecnologia à software”.

No entanto, fala-se muito pouco sobre como a tecnologia está mudando uma das maiores forças que moldam a sociedade: a ambição.

O que as pessoas mais ambiciosas fazem com suas vidas está mudando rapidamente e tem um impacto profundo na sociedade, na economia e na cultura.

A análise a seguir vem de um post de Matt Clifford, no qual são incluídas perspectivas focadas na América Latina. Aqui, o link original em inglês, caso queira vê-lo.

Uma breve história da ambição

Para contextualizar a situação atual, resumirei aqui a história da ambição. O conceito mais importante é a ideia de “tecnologia da ambição”.

É a tecnologia que permite a alguém exercer um impacto em um momento e em um local específico. Entenda a ambição aqui não como algo negativo, mas sim pelo que define sua essência: ambiciosos querem maximizar seu impacto pessoal. Portanto, indivíduos ambiciosos buscam caminhos que lhes deem acesso à tecnologia de ambição dominante em sua época.

Com o passar do tempo, esses caminhos vão se tornando padronizados (transformam-se em carreiras, finalmente) e, então, desenvolvem-se instituições para formalizar o acesso à tecnologia. Essas instituições, por sua vez, tornam-se ímãs de talento.

O que são essas “tecnologias de ambição”?

Se você nascesse no início da Inglaterra medieval e não fosse filho de um senhor feudal, suas perspectivas seriam bastante limitadas, não importa quão ambicioso você fosse.

Existiam poucas maneiras (se é que existiam) que tornassem possível causar algum impacto para além da vila em que você tivesse nascido.

No entanto, no final do período medieval, uma grande “tecnologia de ambição” havia surgido.
Essa tecnologia permitiu que o filho de um açougueiro de Ipswich construísse o Hampton Court Palace.

Por que foi possível ao cardeal Wolsey sair do anonimato e se tornar a pessoa mais rica e poderosa do país?

Em poucas palavras: alfabetização.

A alfabetização era a maior tecnologia de ambição da época pré-moderna. Se você pudesse escrever instruções e ter pessoas capazes de lê-las, poderia, então, gerenciar em escala. Não na escala que conhecemos hoje, mas certamente uma escala muito maior do que apenas a vila em que você havia nascido.

Se você quisesse ler e escrever, teria que entrar para a Igreja, como Wolsey fez.

Pense nisso por um segundo. Pense em você, jovem e ambicioso, ou no seu amigo banqueiro ou consultor que se mata de estudar para ter um emprego de prestígio. Se você ou ele tivessem nascido há mil anos, estariam se preparando muito, não para entrar na McKinsey ou no Goldman Sachs, mas para se tornarem monges ou padres. Não por amor a Deus, mas por pura ambição.

Duzentos anos depois, e a “tecnologia da ambição” dominante deu um passo à frente. No século XVIII, os exércitos foram se profissionalizando e algo mais parecido com os estados modernos começou a surgir. O comando militar se tornou a nova “tecnologia de ambição” que as pessoas ambiciosas queriam dominar.

Nos anos 1.800, o comando militar permitia que um indivíduo falasse uma palavra em Paris e movesse exércitos a centenas de quilômetros de distância. É essa “tecnologia” que permitiu ao jovem Napoleão deixar de ser um desconhecido na Córsega e se tornar imperador da França.

Algumas gerações depois, a tecnologia de ambição dominante passou a ser finanças. Cheques e memorandos escritos em Nova York passaram a ter impacto ao redor do mundo. Os indivíduos ambiciosos que podiam controlar as finanças tornaram-se os “mestres do universo” em ascensão. Figuras como J.P. Morgan no final do século XIX e Sidney Weinberg em meados do século XX tornaram-se lendas de Wall Street.

O domínio das finanças como carreira padrão para pessoas ambiciosas persiste notavelmente. Eu vivi isso pessoalmente. Quando trabalhei em um banco de investimentos em Nova York de 2013 a 2015, trabalhei com os recém-formados mais ambiciosos e preparados que já conheci na vida.

Preparando-se desde tenra idade para ser “o melhor dos melhores em tudo”.

No entanto, já estamos começando a perceber uma mudança. Dentro das mesmas finanças, os bancos de investimento deram lugar aos fundos de private equity como a melhor carreira em finanças para jovens hiper ambiciosos.

Um bom teste para saber qual é a tecnologia de ambição é ver o que os loiros de olhos verdes das melhores universidades estão estudando. Pense em Chad Rockefeller aos 18 anos – certamente estaria estudando finanças.

No entanto, existe um lugar do mundo em que a ambição de carreira padrão não é em finanças: o Vale do Silício. No Vale do Silício, as pessoas mais ambiciosas desejam criar empresas de tecnologia, e geralmente o fazem aprendendo a desenvolver software.

Assim como Matt Clifford, aposto o dinheiro que quiserem que a criação de empresas baseadas em software será, sem dúvida, a ambição dominante no mundo no século XXI.

Ambição e meios de produção

Os empreendimentos criados com base em tecnologias digitais (software, internet, aplicativos móveis, inteligência artificial) representam as “tecnologias de ambição” mais poderosas até o momento por três razões: aumento de escala, aumento de escopo e custo decrescente.

  • Escala: devido à Internet. As tecnologias digitais conseguem exercer um impacto em mais pessoas do que em qualquer outro momento da história. Alguém na história da humanidade conseguiu impactar um bilhão de pessoas diariamente antes do século XXI? Napoleão ficaria verde de inveja das ordens de Mark Zuckerberg e com o número de pessoas que podem ser alcançadas através da internet aumentando todos os dias. Pense em quanto tempo você gasta no Instagram ou no TikTok – foi alguém muito mais jovem que seus pais que os criaram.
  • Alcance: as tecnologias digitais são de uso geral. Independentemente do foco de ambição de cada um, as tecnologias digitais fornecem um meio para que isso aconteça. Como disse Marc Andreessen: “a tecnologia está comendo o mundo”. Por exemplo, táxis e hotéis são a última coisa que você consideraria indústrias tradicionalmente tecnológicas. Hoje, porém, as empresas mais importantes dos dois setores são empresas de tecnologia. Isso significa que mesmo as pessoas que não estão intrinsecamente interessadas em tecnologia podem e irão recorrer às tecnologias digitais para realizar suas ambições.
  • Custo: o custo de iniciar uma empresa de tecnologia diminuiu muito na última década. Código aberto e modelos de software como um serviço, em vez de compra de licenças, fazem com que o lançamento de uma ideia possa custar menos de 5.000 dólares, eu mesmo lancei empresas com 200 dólares. Na maior parte da América Latina, é possível criar uma empresa em alguns dias e de forma super barata.

Esta é a mudança mais profunda de todas, desde o modelo de ambição de J.P. Morgan ao de Mark Zuckerberg, o que vemos é uma alteração do capital para o talento.

Pessoas ambiciosas, ao invés de escrever cheques, passaram a escrever códigos. Hoje em dia, as pessoas mais ambiciosas não possuem mais os meios de produção. Se elas são capazes de escrever código, elas são seus próprios meios de produção. Isso dá um poder sem precedentes a pessoas ambiciosas.

Te digo com clareza: não há nada mais poderoso no momento do que um desenvolvedor brilhante com um computador nas mãos e paixão por um problema.

Essa é a razão pela qual cada vez mais vemos os indivíduos mais ambiciosos do planeta buscando dominar a tecnologia da ambição de hoje: o empreendedorismo em tecnologia e as tecnologias digitais que tornam isso possível.

Isso fica claro nos EUA, voltando ao exemplo de Chad Rockefeller, 70% dos Chads consideram seriamente tornarem-se desenvolvedores para que possam criar suas próprias empresas.

O investimento bancário, o rei supremo em 2015, hoje perde grande parte de seus talentos para o setor de tecnologia. Dos dez analistas que trabalharam comigo no Bank of America, quatro agora trabalham em tecnologia, e eu suspeito que esses números continuarão aumentando.

Finalizo com um convite. Se você é uma pessoa hiper ambiciosa e quer ter um impacto gigante em sua vida, considere seriamente uma carreira em tecnologia. Seja atingindo os fundamentos básicos (aprendendo a desenvolver), fazendo parte de uma startup (aprendendo a escalar) ou da maneira mais direta possível (iniciando sua própria startup baseada em tecnologia).

Na América Latina em geral, e na Colômbia, em particular, estamos cheios de problemas, oportunidades, e os próximos líderes da indústria se parecerão mais com David Vélez ou Simón Borrero do que com Julio Mario Santodomingo.

Se quiser saber mais sobre como é a vida de um fundador: aqui está um podcast que fizemos sobre minha startup. Se estiver interessado em saber mais sobre minha carreira, aqui está uma entrevista em que falo sobre meus aprendizados na carreira com mais detalhes.

*Daniel Bilbao é fundador da Truora aqui, startup que usa tecnologia para tentar combater fraudes.

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