O que Cris Junqueira aprendeu sobre liderança feminina e todo mundo deveria saber

No Dia Internacional da Mulher, a cofundadora do Nubank divide aprendizados e experiências sobre ser mulher no mercado de trabalho

Nos últimos anos, o mês da mulher vem ganhando cada vez mais importância no mercado corporativo. Afinal, a igualdade de gênero nas empresas - e na sociedade como um todo - finalmente começa a ser tratada com a seriedade que merece.  Ainda há um longo caminho, porém, a ser percorrido até que as mulheres recebam as mesmas oportunidades que os homens.

Em sua coluna em vídeo para a EXAME neste Dia Internacional da Mulher, Cristina Junqueira explica porque as empresas só têm a ganhar com mais diversidade em seus quadros de liderança e divide alguns aprendizados e experiências que teve ao longo de sua carreira para conseguir chegar lá. Veja a seguir:

A IMPORTÂNCIA DA LIDERANÇA FEMININA

Cristina Junqueira: Existem inúmeros estudos que mostram que times mais diversos na tomada de decisão chegam a resultados melhores e escolhas mais acertadas. Outros estudos já atestaram também que empresas com mulheres na liderança chegam a ter lucros até 20% maiores, como resultado de terem mais inovação e uma cultura mais colaborativa - tudo isso causado por essa maior diversidade.

O aumento da diversidade torna o ambiente mais aberto e inovador para os próprios funcionários, e isso se reflete em equipes muito mais criativas, o que pode ser um diferencial para o seu negócio.

Em momentos de crise, uma líder mulher também pode fazer a diferença - tivemos alguns bons exemplos disso durante essa pandemia, por exemplo. Vários países que estavam sob a liderança de mulheres se saíram melhor nas respostas à doença. As mulheres são reconhecidas por terem mais cuidado na tomada de decisão, principalmente quando vidas estão em risco.

OS PRINCIPAIS DESAFIOS

Cristina Junqueira: Se existem tantos benefícios, por que as mulheres continuam sendo uma pequena minoria nas posições de liderança? E, de fato, ainda é bastante difícil chegar lá.

Um estudo de 2019 mostra que 44% das startups nos EUA não têm nenhuma mulher em cargo de liderança - e isso considerando que uma startup é uma empresa de tecnologia, jovem e geralmente mais moderna. Nas grandes empresas esse número é ainda menor. Além disso, hoje, no mundo todo, eu sou a única mulher fundadora de uma startup que vale mais de US $10 bi.

E esses números são ainda piores se considerarmos outros recortes:

  • O número de mulheres negras em posições de liderança no Brasil é de cerca de 8%.
  • Mais de 60% das mulheres com deficiência trabalham hoje em cargos operacionais e quase 80% delas não têm nenhuma perspectiva de eventualmente receber uma promoção.
  • Quando falamos de mulheres trans, então, existe uma discussão enorme sequer da inserção delas no mercado de trabalho.

Ainda há muito espaço para avançar, não apenas na igualdade de gênero, mas também considerando todos esses recortes.

Estereótipos

Outra coisa que também prejudica as mulheres na busca por esses cargos de liderança, desde pequenas, são os estereótipos.

As meninas são, desde crianças, menos estimuladas a se interessar por áreas como tecnologia, ciências, finanças, e isso gera um número de mulheres que perseguem carreiras nessas áreas muito menor, fazendo com que seja ainda mais difícil ter lideranças femininas nesses setores.

Portanto, é importante estimular isso. No Nubank, fazemos eventos exclusivos para a contratação de mulheres em áreas como engenharia de software, por exemplo, como maneira de conseguir incentivar um maior número de mulheres a se aplicarem para nossas vagas.

Falta de referência

A falta de referência também é um problema em setores como o de tecnologia e financeiro. As mulheres não conseguem sonhar com algo que não conseguem ver - e isso acaba sendo uma barreira adicional para despertar esse interesse.

Essa falta de referências diminui também o contato que essas mulheres têm com pessoas em cargos de liderança, o tempo que elas se mantêm na força de trabalho e, consequentemente, a probabilidade de um dia alcançarem cargos de liderança elas mesmas.

Eu posso falar por experiência própria. Na minha carreira, eu sempre fui a única mulher em quase todos os ambientes que circulei. Na faculdade, era um ambiente majoritariamente masculino, eu era uma de poucas. E, no trabalho, eu nunca tive chefes, diretoras ou vice-presidentes mulheres em que eu pudesse me espelhar.

Isso foi algo que me fez querer fazer muito diferente no Nubank. E, ainda bem, hoje a gente tem 42% de mulheres em todas as posições e níveis de senioridade e cerca de 40% das nossas posições de liderança ocupadas também por mulheres.

Esse número é altíssimo quando comparado às outras empresas do setor financeiro e de tecnologia. Como referência, as grandes empresas de tecnologia do Vale do Silício, nos seus times técnicos, não passam de 12% de representatividade feminina - no Nubank, esse número é de pelo menos 20%. Temos ainda o compromisso de, no máximo até 2025, idealmente antes, chegar a 50% de mulheres em todos os cargos e posições de liderança.

Maternidade

A maternidade acaba também sendo outro fator que, infelizmente, acaba segurando o avanço das mulheres. Quando se olham as curvas do crescimento de carreira, e mesmo de ascensão salarial, das mulheres, a idade em que a maioria delas começa a pensar em ter filhos e constituir família representa um descolamento em comparação com a projeção dos homens.

Alguns estudos mostram que as mulheres nessa faixa têm também 70% mais probabilidade de serem percebidas como menos flexíveis para abraçar projetos maiores e mais desafiadores. Isso tudo se reflete em possibilidades de promoção e desenvolvimento de carreira na direção da liderança muito menores.

E, de novo, já vi isso acontecer muito ao longo da minha carreira - com colegas e amigas que tiveram filhos e isso impactou suas carreiras. A minha experiência pessoal foi um pouco diferente. Quando eu estava grávida da minha primeira filha, de sete meses, barrigão, fui até os EUA fazer o pitch da nossa primeira rodada de investimentos do Nubank junto com os meus sócios. Foi uma grande novidade para muitos deles ver uma mulher grávida naquela posição, mas isso também sinalizou o quão comprometida eu estava com aquele projeto e quão importante isso era na minha vida para que eu estivesse disposta a fazer aquilo naquele momento.

Eu costumo dizer que "a mulher grávida é o mamífero mais eficiente do Planeta Terra". Eu vivi isso e posso afirmar que a maternidade traz muitas qualidades e competências que eu mesma não tinha desenvolvido antes.

COMO PROMOVER MAIS MULHERES À LIDERANÇA?

Cristina Junqueira: O primeiro ponto importante é que precisa ser intencional. Precisa haver um movimento de desafiar a maneira como as coisas sempre foram feitas historicamente. Repensar os processos de maneira a retirar os vieses e mostrar às mulheres que, sim, elas têm esse potencial e que elas são bem vindas e capazes de assumir essas posições de liderança. Isso vale não somente para a igualdade de gênero, mas pensando também em todos os outros recortes sociais, como raça e orientação sexual.

Passa também por incentivar a formação dessas mulheres. Em muitos países do mundo, as meninas não têm sequer a oportunidade de ir para a escola. Aqui no Brasil, não há essa diferença tão grande quanto ao acesso educacional nas idades mais jovens, mas isso se intensifica na universidade, principalmente em carreiras ligadas às finanças e à tecnologia.

O fato de que muitos dos lares ainda são chefiados por mulheres também agrava a situação - principalmente levando em consideração o recorte de mulheres negras. Mais de 90% das mulheres ainda são as grandes responsáveis pelos cuidados e afazeres domésticos, o que acaba comprometendo o tempo disponível para focar em suas carreiras. Existe um papel importante que temos que absorver enquanto sociedade de dividir melhor os papéis dentro de casa.

Por fim, uma vez que essas mulheres estejam dentro das empresas, é preciso criar um ambiente inclusivo. Não basta apenas trazer essa diversidade para dentro da empresa, mas criar um ambiente em que elas sintam que possam ser elas mesmas. A inclusão passa por uma porção de medidas, mas principalmente por sinalizar que elas são bem vindas e criar espaços de troca e grupos de afinidade em que elas possam trocar experiências entre si.

Outra coisa que ajuda muito são os programas de mentoria. Como mencionei, eu nunca tive mentoras durante a minha carreira - só recentemente ganhei uma, que acabou virando uma grande amiga -, mas já fui mentora de muitas mulheres, dentro e fora do Nubank. É algo que a gente pode e deve fazer, para ajudar que o desenvolvimento da carreira de novas mulheres seja menos difícil do que o nosso foi.

Por meio de novos exemplos, conseguimos ter mais referências e mais oportunidades de destruir esse círculo vicioso para criar um círculo virtuoso de liderança feminina.

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