Maternidade ou carreira? O impasse não deveria existir, diz Cris Junqueira

A maternidade é um momento marcante na vida e na carreira das mulheres, mas conciliar as duas coisas é um desafio. Cris Junqueira dá dicas sobre o assunto

A maternidade é um momento marcante na vida e na carreira das mulheres. Ainda hoje, no entanto, conciliar as atividades nessas duas frentes traz inúmeros desafios. Em sua coluna desta quinzena, Cristina Junqueira, cofundadora do Nubank, aproveita o Dia das Mães para contar sua experiência pessoal como mãe e responder às principais dúvidas sobre o assunto enviadas nas redes sociais.

Como é estar no mercado de trabalho sendo mãe?

Cristina Junqueira: Para a imensa maioria das pessoas, se não para todas, é um grande desafio. Não é fácil. A proporção de mulheres, quando olhamos para cargos de liderança e posições mais seniores nas empresas, vai diminuindo com o tempo. E estudos mostram que cerca de metade das mulheres sai da força de trabalho em até 2 anos depois de serem mães.

Existem vários fatores que levam a isso. Desde como as mulheres lidam com sentimentos de culpa por terem que deixar seus filhos em casa para voltar a trabalhar, até o tipo de apoio que elas conseguem ter - alguém para cuidar das crianças, ou algum lugar para deixá-las enquanto estão no trabalho - e como isso se relaciona ao ambiente familiar.

Na pandemia, esse quadro piorou ainda mais e a participação de mulheres nas faixas etárias mais comuns à maternidade despencou, o que é um grande retrocesso.

Dadas as devidas proporções - eu sei do meu privilégio e de todo o acesso a recursos e a apoio -, eu também passei por muito disso quando engravidei. A minha filha mais velha, Alice, como eu sempre brinco, é "gêmea" do Nubank: os dois nasceram no mesmo mês, em setembro de 2014, quando estávamos lançando o nosso primeiro produto. E eu tive que fazer muita coisa com ela recém-nascida, ou mesmo ainda na barriga.

Já contei, inclusive em outras colunas, a história de como viajei aos Estados Unidos com os meus sócios para fazer o pitch da nossa primeira rodada de investimento enquanto estava grávida de 7 meses. Quando fechamos essa rodada, eu já estava na maternidade e acabei assinando os papéis de lá. Ela nasceu numa quarta-feira, fiquei no hospital até sábado e, na segunda-feira seguinte, já voltei a trabalhar.

Naquela época, o Nubank ainda era muito pequeno, com uma equipe enxuta, e muita coisa dependia de mim. Foi um período muito intenso, e foi bastante desafiador conseguir conciliar as coisas, mas não foi impossível. O que sempre me ajudou nessas situações foi ter muita clareza das minhas prioridades e ter uma rotina muito bem definida e executada.

Em termos de prioridade, eu falo que só tenho tempo para duas coisas na minha vida: minha família e o Nubank. Há uma série de outras coisas que eu gostaria de fazer - aprender a tocar um instrumento, ver meus amigos, hobbies - mas atualmente não dá. Eu não conseguiria dedicar a atenção que preciso a essas duas coisas se tentasse focar em outros elementos também. São escolhas.

E, nessa escolha que fiz, de priorizar a minha família e o Nubank, uma coisa que me ajudou muito foi organizar a minha rotina em torno das minhas filhas. Eu desenhei a minha rotina baseada nos horários das meninas - na época, da Alice, e agora também da Bella. Acordava cedo, deixava a Alice no berçário, trabalhava, trabalhava, trabalhava, buscava e ia para casa fazer as mamadeiras, dar banho e colocar para dormir. Era puxado, mas foi a escolha que eu fiz para fazer tudo funcionar.

É muito importante conseguir organizar a rotina, principalmente, porque a criança precisa de rotina. Com isso, tudo acaba ficando mais fácil. A criança come melhor, dorme melhor, e sobra tempo para você planejar tudo o que precisa fazer em casa e no trabalho.

Também não posso deixar de mencionar quão importante é ter um companheiro que participa e assume suas responsabilidades enquanto pai para que eu consiga conciliar todas as tarefas da maternidade e da minha carreira.

Qual é o papel da divisão de responsabilidades entre pais e mães no avanço da carreira das mulheres?

Cristina Junqueira: O impacto é muito grande. A Sheryl Sandberg falou sobre isso no livro dela, o "Faça Acontecer": a decisão mais importante de carreira que uma mulher faz é quem ela escolhe como parceiro para sua vida e como será a divisão de tarefas e responsabilidades em casa.

Muitos dados e estudos, historicamente, mostram que as mulheres já dedicavam o dobro do tempo em tarefas domésticas do que os homens. Com a pandemia, isso também piorou - o número foi de duas para três vezes maior. E isso, é claro, tem impacto na carreira das mulheres. As mães solo sofrem com isso ainda mais.

Outro dado importante é que essa diferença de responsabilidades têm impacto não somente no mercado de trabalho corporativo, em que sabemos que as mulheres são as que mais sofrem com demissões e impactos na renda, mas também no lado do empreendedorismo. Recentemente, o Nubank lançou um estudo do Data Nubank focado em MEIs (microempreendedores individuais) e descobriu que o percentual de mulheres que abriram empresas desde que a pandemia começou caiu de cerca de 50% para 46%. Essa diminuição significativa na proporção de homens e mulheres no mercado empreendedor se dá, principalmente, porque as mulheres precisaram cuidar mais das famílias e dos filhos durante este período.

Esse diálogo de equilíbrio e parceria precisa existir dentro das nossas casas. Apenas encarando essas diferenças de frente, e fazendo combinados que ajudem a equilibrar essas tarefas melhor, é que vamos conseguir avançar e dar às mulheres a mesma oportunidade de focar no seu crescimento profissional.

E qual é o papel das empresas em tudo isso?

Cristina Junqueira: As empresas têm um papel fundamental. Criar times diversos e ter mais mulheres no quadro de funcionários, inclusive nos cargos de liderança, resulta na criação de produtos e serviços melhores e mais representativos para a sociedade em que a gente vive e ajuda a criar o futuro que todos nós queremos viver. Precisa ser do interesse de todos fomentar essa diversidade.

Para isso, é preciso criar um ambiente inclusivo para essas mulheres. Criar políticas e rever processos que forneçam a flexibilidade que essas mães precisam. E isso podem ser coisas que vão desde incentivar o desenvolvimento profissional de todas essas mulheres, em especial às mães, até a criação de grupos de afinidade e espaços em que as pessoas que têm filhos possam se apoiar,  dividir experiências e trocar recursos.

Outro tema que merece atenção especial é a licença maternidade. Aqui no Brasil, há um projeto chamado Empresa Cidadã, que dá a possibilidade das empresas estenderem a licença de quatro para seis meses. Mas, além de não serem todas as empresas que oferecem esse benefício, muitas funcionárias também não se sentem confortáveis em estender o período de licença.

Um estudo da FGV mostra que, no mercado de trabalho, só 40% das mulheres que trabalham em empresas que oferecem a possibilidade de licença maternidade estendida fazem isso. No Nubank, esse número é de 93%. Isso acontece porque as mulheres têm a confiança de que esse período afastadas não vai prejudicar seu desenvolvimento e sua carreira. Elas têm espaço para tomar com tranquilidade a decisão que é melhor para elas mesmas e suas famílias.

O papel das empresas é, cada vez mais, pensar em políticas que permitam e - mais do que isso - não se tornem empecilhos para que as pessoas conciliem suas vidas pessoais com o trabalho e suas carreiras.

 

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