O retrato da bolsa em 22 anos e a autossuficiência do Brasil

Levantamento da gestora Pacífico mostra que entre 98 e 2020 mostra os setores mais resilientes do Ibovespa num período de muitos solavancos

Por Coriolano Gatto

O economista Frank Knight (1885-1972) produziu ao longo da sua bem-sucedida carreira na Universidade de Chicago, EUA, a grande distinção entre o risco e a incerteza. Os acadêmicos, que se debruçaram sobre a obra dele, dizem que o risco é enfrentar uma variável cuja distribuição de probabilidade é conhecida. Já na incerteza, ensinam os professores, haverá uma variável desconhecida, que escapa desse cardápio de probabilidade.

Mal comparando, a incerteza, por vezes, funciona como o imprevisto, que pode causar movimentos abruptos nos mercados. A Covid-19, bem como os seus efeitos subsequentes, faz parte desse rol de imprevisibilidade, que arrastou, além de vidas humanas, todos os mercados, com impactos óbvios na política e nos relacionamentos humanos. A racionalidade ganhou novos contornos da mesma forma que houve uma busca desenfreada por ativos permeados por inovação e tecnologia, sem deixar de lado a velha economia, que buscou o risco para sobreviver diante de novas experiências de empreendedorismo. A disrupção, conceito antigo, passou a ser a regra e não mais a exceção. Muitos falam, poucos a praticam na essência.

A despeito dessas mudanças, um minucioso levantamento feito pela gestora de recursos, a carioca Pacífico, uma das mais discretas e tradicionais, a pedido desta coluna, demonstra que entre 1998 e 2020 o investidor atravessou crises econômicas e políticas de grande magnitude, mas manteve boa dose de conservadorismo na escolha da sua carteira de ações. Por um longo período, o Brasil foi o paraíso dos rentistas – no auge da crise na Rússia, em 1998, os juros atingiram a incrível marca de 45% ao ano. No primeiro governo Lula  (2003-2006), a taxa básica, na média, ficou acima de 20% ao ano.

O estudo da Pacífico, baseado na carteira teórica da bolsa de valores, a B3, identifica mudanças nas companhias – algumas foram tragadas por maus negócios ou optaram pelo fechamento de capital – mas os setores que permaneceram com maior percentual no Ibovespa são os mais resilientes: bancos, petróleo, mineração, siderurgia/metalurgia e energia elétrica. Com a expansão da economia, o setor de consumo, representado pela Ambev e pelo Magazine Luiza, apenas para citar alguns exemplos, passou a constar do Ibovespa, bem como o de construção civil.

Empresas de meios de pagamento, por meio da rubrica financeiro, ganham destaque em 2015 – a fotografia sugerida à Pacífico engloba os anos de 1998, 2000, 2006, 2010, 2015, 2018 e 2020. O fato é que a bolsa, mesmo com todos os solavancos da economia, dá um salto monumental, de 1998 para cá, a ponto do valor de mercado das ações negociadas atingirem a casa dos R$ 5,2 trilhões, cerca de R$ 2,5 trilhões a menos que o nosso PIB.

Ainda que o valor de mercado possa sofrer oscilações em razão de influências da economia mundial ou de decisões erradas da política econômica, nem o mais pessimista imagina um pandemônio na B3, que adotou regras rígidas para os seus players, afastando com isso os oportunistas e os aventureiros. Jamais os especuladores, pois estes, como ensinam os manuais, influenciam o jogo, mas não determinam o resultado final. Nessas mudanças, chama a atenção o declínio das empresas de telecomunicações e de energia elétrica.

O que impressiona é que no ano da pandemia, ainda que o Brasil tenha encerrado com a sua menor taxa de juros de sua história, de 2%, medida pela Selic, fixada pelo Banco Central, os bancos lideram o Ibovespa com uma fatia de 20,1%. Um sinal evidente da importância do setor em irrigar a economia. E, em segundo lugar, possivelmente influenciado pelo auxilio emergencial, o eficiente programa de transferência de renda para 67 milhões de brasileiros, figura, nesta ordem, consumo (15,6%), mineração (13,6%), petróleo (11,05%) e os demais setores abaixo de 6%.

À guisa de comparação, em 1998, a participação era: energia elétrica (30,70%), petróleo (19,18%), telecomunicações (18,92%), bancos (16,79%) e os outros segmentos abaixo de 6%. Ou seja, o retrato do mercado de capitais demonstra uma mudança radical nas empresas e nos seus respectivos setores. Daqui a dez anos, ou até mesmo antes disso, outros setores e empresas passarão a ter maior peso no Ibovespa.

A Eletrobras, que despontava em 1998, sumiu do mapa. Agora, as ações de Vale, Itaú, Petrobras, Bradesco e B3 lideraram o ranking do primeiro ano da pandemia. Registre-se que os dois bancões, ao longo dos 22 anos, foram os mais presentes em qualquer governo – FHC, Lula, Dilma, Temer e Bolsonaro. Certamente, com o incremento de maior competitividade no sistema financeiro, haverá mudanças expressivas nesta década.

Ao longo do tempo, porém, há uma consolidação do setor de commodities, e o consumo, por força do crescimento da economia, ganha um peso expressivo na composição do índice. O que não muda é a concentração bancária: a presença se deve aos conglomerados Bradesco, Itaú, Banco do Brasil e Santander. Merecem destaques empresas de educação e a B3, o que confirma a confiança e a credibilidade no mercado de capitais.

Como boa notícia não é algo noticioso, ensinou o cronista Rubem Braga, fica registrado mais um tento para os participantes do mercado, o que inclui a vigilante CVM, que poderia ser mais rigorosa, como sugerem grandes advogados societários, em malfeitos de administradores.

O grande investidor e filantropo George Soros, que se projetou internacionalmente, em meados de 1992, ao ganhar US$ 1 bilhão ao especular contra a libra esterlina, faz a síntese do país: “O Brasil é uma economia grande e autossuficiente. Pode sobreviver por si próprio”, disse em 1995.

Da mesma forma, o cientista político Luiz Felipe d’Ávila, seis anos depois, resumiu o nosso porvir. “O sucesso do Brasil é fruto da institucionalização de boas políticas públicas, especialmente nas áreas econômica e monetária”.  Se depender dos agentes de mercado, que, apesar das incongruências do governo, continuam a apostar em novos projetos em busca de investidores, a bolsa, quem sabe, não continua a trilhar o caminho da indução tão apregoado por Francis Bacon (1561-1626): se uma experiência leva aos mesmos resultados em um grande número de repetições, é altamente provável que ela continue dando o mesmo resultado na próxima repetição. Vem crescimento forte à vista.

Coriolano Gatto é jornalista e colunista da EXAME

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