O PIB forte, os riscos da travessia ou como evitar o “Keynes Centrão”

Capitalismo, por definição, é um jogo de ganha-ganha e não de rouba-monte

Por: Coriolano Gatto

Até a Velhinha de Taubaté, uma personagem criada pelo escritor e humorista Luis Fernado Veríssimo, sabe que a economia vem forte no segundo semestre, desta vez impulsionada pelo setor de comércio e de serviços, que representa cerca de 70% do PIB, a despeito do cenário sombrio para 2021, que se avizinhava em fevereiro. O setor pode ter uma expansão entre 6% e 7%. A senhorinha foi a última pessoa a acreditar no governo João Figueiredo (1979-1985), o ditador que encerrou o ciclo militar, instalado em 1964, e deixava uma situação calamitosa para o seu sucessor, com a explosão da inflação.

Os novos indicadores, como se sabe, apontam para uma recuperação, apesar de uma taxa de desemprego elevada, até mesmo com a volta firme de emissão de bonds das empresas brasileiras no exterior, assim como o retorno de investidores estrangeiros à bolsa de valores, que bate recordes de IPOs (ofertas iniciais de ações) já efetivados ou na prateleira da CVM (Comissão de Valores Mobiliários). O PIB pode crescer 5,5%. Até mesmo a inflação na faixa de 8% ao ano já não assusta, caso os instrumentos de política monetária sejam eficazes para reduzi-la a 5,5% no último trimestre. O choque de oferta foi expressivo, causado, sobretudo, pela escassez de milho e de soja no mundo, com reflexos óbvios na cadeira de proteína animal em meio ao boom das commodities. A redução paulatina do dólar, que encostou nos R$ 6,00 em razão de fortes incertezas provocadas por desatinos do governo federal, traz alento. O mesmo dólar ficou estabilizado em R$ 5, podendo cair para R$ 4,80.

O Brasil está longe ainda da margem de segurança exigida por uma economia complexa, um mercado consumidor gigante e enormes desigualdades sociais, que serão acrescidas de dois anos perdidos em escolaridade. Mas é fato que o aumento da taxa de investimento, a conhecida Formação Bruta de Capital Fixo, indica confiança dos agentes econômicos no porvir, registrando uma expansão no primeiro trimestre acima de 14%. O capital, costumava dizer o sábio Eliezer Batista (1924-2018), é covarde e apátrida, indo em busca das melhores oportunidades de retorno do investimento, a famosa TIR. O temor, no horizonte, reside, como sempre, na lentidão na vacinação contra a Covid-19, em que pese o ritmo mais acelerado com o atual ministro da Saúde, depois da desastrada atuação do seu antecessor. É melhor, cara leitora e caro leitor, nem lembrar do general fanfarrão, inoperante e irresponsável na política pública da Saúde.

Afinal, há razão para o otimismo, mesmo com a insistência de estultices de parte do governo Bolsonaro? O experiente gestor Dório Ferman, 76 anos, sócio do Opportunity, está convencido de que a estrutura econômica hoje é melhor, o que significa maior capacidade para enfrentar turbulências e um projeto racional que transmite confiança aos empresários e investidores. Ele costuma dizer que os pessimistas sempre estão em vantagem, pois ao apregoarem, por exemplo, a queda na bolsa, serão exitosos em algum momento.

O grande compositor e maestro Tom Jobim (1927-1994) ensinava que a energia gasta para ser otimista e pessimista era a mesma. “Então, meu filho, seja otimista, é muito melhor”, dizia entre uma baforada e outra do seu charuto, fosse ele um Partagas, um toscano, um nacional Suerdieck ou os imbatíveis cubanos, como o Romeo y Juliet Churchill. O economista Luiz Carlos Mendonça de Barros prefere usar a técnica para evitar a ilusão causada por uma sala de espelhos convexos, que, ao produzirem imagens conjugadas por um objeto verdadeiro, exibem uma natureza virtual e provocam distorções. Mendonça, como Ferman, vai direto ao ponto e prefere analisar a economia deixando o fígado de lado.

O tucano, que cumpriu papel importante na privatização das telecomunicações, em julho de 1998, à frente do BNDES, garante que o rigor evita uma análise ideológica, seja à esquerda ou à direita, independentemente do presidente da República. Ele faz parte desse clube dos otimistas em razão dos indicadores.

O horizonte, com a ampliação do prazo do novo auxílio emergencial e outras políticas distributivas, aponta para um sistema econômico mais com o portrait do inglês John Maynard Keynes (1883-1946) do que do americano Milton Friedman (1912-2006), o festejado liberal vencedor do Nobel de Economia de 1976, que deu aulas para o jovem Paulo Guedes, na Universidade de Chicago, que há muito tempo reviu algumas sandices, como a teoria da expectativa racional, modismo dos anos 1970 e 1980.

Keynes, porém, não pode vir travestido de populismo para beneficiar os eternos lobbies de parlamentares e dos famosos cartórios, todos com a chancela do Centrão, que no passado serviu de base de apoio político na era petista. Ninguém com racionalidade pode aprovar o modelo previsto para a privatização da Eletrobras e obras que beneficiam parlamentares.

O economista Ignácio Rangel (1914-1994), desconhecido do grande público, mas relevante no pensamento econômico brasileiro, defendia a concessão como instrumento de modernização, sem o Estado perder integralmente o controle do ativo ao longo do tempo, diferentemente de uma simples privatização. Rangel influenciou na formação de mestres do naipe de Dionísio Dias Carneiro (1945-2010), que teve uma passagem brilhante pela FGV EPGE, antes de pousar definitivamente na sua casa, a PUC-Rio. A diferença é que Dionísio defendia também a venda de estatais com o instrumento da golden share, uma ação especial nas mãos da União.

Não entremos na sala dos espelhos convexos: há sempre riscos à vista. As ideias que causam ilusões de óptica se encaixam em oportunistas ou ingênuos que acreditam em extraterrestres ou assombrações. Ou em um ideário simplório. É como colher maçãs do galho mais baixo, ensinam os ingleses. O movimento do Fed (Federal Reserve, o BC americano), ao apontar uma alta dos juros em 2023, deu um susto nos mercados e, no futuro, pode provocar a saída de capitais do Brasil, dependendo do manejo da política econômica, independentemente do vencedor das eleições presidenciais de 2022. Mas hoje, receita um experiente economista e ex-diretor do Banco Central por duas vezes, os mercados têm o grande poder de influenciar os juros e o câmbio futuros, empurrando as autoridades monetárias a tomar decisões rápidas para conter qualquer alta da inflação, como faz com competência Roberto Campos Neto. Os BCs, portanto, têm um poder reduzido e, por isso, é preciso olhar sempre para a curva futura de juros, assim como a sua estrutura a termo.

A inflação, que é desastrosa para os pobres, abre um espaço generoso para o aumento de despesas sem pressionar o déficit público, como já foi largamente noticiado. É evidente que o chefe do BC e o ministro da Economia não assistiriam à elevação, agora pressionada pela tarifa da energia elétrica, de forma silenciosa. Há um arsenal portentoso para combatê-la sem tréguas. E o temerário racionamento de energia é outro empecilho para o crescimento sustentável, embora um bom planejamento − olha o Keynes aí de novo − pode mitigar os problemas inevitáveis da restrição à eletricidade. À coluna, um grande empresário, cujo negócio figura no ranking dos maiores consumidores de energia, disse que é possível mudar os horários de produção, mas não acredita, por ora, no racionamento.

A propósito: a Velhinha de Taubaté, nascida em 1915, morreu em 2005. O humorista Veríssimo abandonou a personagem em razão da sua grande decepção com o chamado mensalão, um esquema de compra de votos de parlamentares da base de apoio governista durante o primeiro mandato de Lula. Agora, espera-se que o governo faça menos alarde e produza resultados que deem tranquilidade ao investidor e reduza a enorme concentração de renda. Capitalismo, por definição, é um jogo de ganha-ganha e não de rouba-monte. Para isso, é necessário o aumento de produtividade, com investimento maciço em educação,  melhoria da infraestrutura e mitigar o conflito distributivo, escondido no ano passado em razão do auxílio emergencial. Sem o “Keynes Centrão”, o país, avaliam economistas independentes, pode crescer 3% em 2022. Sem oportunismos ou políticas fisiológicas.

*Coriolano Gatto é jornalista e colunista da EXAME

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