O meteoro Bolsonaro aumenta as incertezas em meio a um PIB forte

O Brasil precisa perseguir o crescimento, a distribuição de renda e a geração de empregos

Por Coriolano Gatto*

Em 2002, em uma  patacoada, o banco americano Goldman Sachs, por meio do analista Daniel Tenengauzer, criou uma fraude no mercado financeiro: o lulômetro – ou lulameter, em inglês. A divulgação ocorreu em plena efervescência da campanha presidencial de 2002, em que Lula ainda patinava frente ao candidato tucano José Serra. O chamado mercado – esse ente invisível que ninguém conhece de fato, toma um Château La Mission Haut-Brion e fuma um charuto Cohiba – abraçou a doideira, e o dólar, em quatro meses, deu um salto para 4 reais – lulameter previa R$ 3,04 após o encerramento do segundo turno das eleições, fins de outubro. Como se sabe, Lula ganha com folga a eleição e anuncia, em janeiro de 2003, uma política econômica tão ortodoxa que até o economista Serra ficou assustado, assim como outros próceres do PSDB. Agora, sem qualquer cretinice, é possível medir os estragos dos solavancos diários do presidente Jair Bolsonaro às instituições democráticas com boa pitada de um linguajar apropriado a estádios de futebol.

Como ensinou um grande criminalista – que não cobrava dos pobres que eram réus confessos, para obter espaços generosos na mídia, e esfolava os ricos com os seus honorários –, tão importante quanto os fatos são os detalhes.

Vamos aos números antecedentes: o ministro Paulo Guedes, tão criticado por suas previsões, mencionou um crescimento sustentável (ou em “V” depois do ano crítico de 2020) e o PIB começa a ter robustez. Já se projetava algo entre 5% e 6% e 3% para 2022. Os céticos diziam que a expansão se devia ao agronegócio (27% do Produto), que não é grande gerador de emprego. Depois, o setor de comércio e de serviços (quase 70% do PIB) dá sinais de retomada. Os analistas ficam quietos. A dívida pública cai _ ah, a inflação ajudou e pode resultar em uma receita adicional em R$ 100 bilhões em 2022. Seria a licença para gastar. O dólar recua de forma vertiginosa. Insistem: é por conta da conjuntura internacional. A taxa de desemprego permanece alta _ é fato incontestável _, mas dá indícios de queda no segundo semestre. A arrecadação dos estados bate todos os recordes. O programa de privatizações e de concessões avança, depois da lentidão do início do governo. A volta do auxílio emergencial dá mais um empurrão. Guedes alertava que era necessária a vacinação em massa contra a Covid-19 para a volta à normalidade da atividade econômica com total segurança. A declaração passa desapercebida.

Mas neste período de notícias alvissareiras, os ataques de Bolsonaro começam a ganhar decibéis muito altos e causam os primeiros sustos em empresários, investidores e em todos aqueles comprometidos com o Estado de Direito Democrático. Até as urnas eletrônicas sofreram pedradas, a despeito do sucesso desde 1996 nas eleições em todos os níveis. Notem que a CPI da Covid ainda não causava impacto na bolsa, ao contrário de pesquisa recente sobre o tema. Não há bobo no mercado, apenas os trouxas que entram na bolsa em alta, orientados por blogs e sites de segunda categoria ou por gerentes de bancos interessados em bater a meta no fim do mês.

A pedido da coluna, a Pacífico Gestão de Recursos levantou indicadores relevantes. Aos números: a bolsa perdeu, em pouco tempo, cerca de R$ 600 bilhões em valor de mercado. A esquerda míope comentaria: “Isso é irrelevante. A bolsa é um cassino, não é um bom indicador”. Sim, o outrora  valor de R$ 5,5 trilhões em valuation de empresas que geram emprego e riqueza não têm importância, por esse raciocínio tacanho.

 (Pacífico Gestão de Recursos/Divulgação)

Vamos então aos juros futuros, que afetam diretamente os rincões mais longe do país e não apenas o humor da tal da Faria Lima. Desde que Bolsonaro engrossou o discurso contra as instituições e deu a aparência de dominar um falso poder militar, a taxa voou para mais de 11%. Não é preciso falar do dólar, que, em meio às incertezas, tem uma trajetória exponencial, como o vírus da Covid-19.

 (Pacífico Gestão de Recursos/Divulgação)

Nem mesmo os falantes Paulo Guedes, Ciro Nogueira e Artur Lira foram capazes de conter a incontinência verbal de quem deveria zelar pelo arranjo institucional dos Três Poderes. Até Fernando Collor de Mello, aos 40 anos, não era tão tonitruante e arrogante com a ciência e com a lógica da engrenagem econômica. A difícil tradução de CDS (credit  default swaps,  troca de risco de crédito) é o melhor indicador para medir o risco de um país.  No caso brasileiro, o salto foi de 160 para perto de 200. Na linguagem técnica, O CDS é um tipo especial de swap (derivativo), desenhado para transferir o risco de crédito de títulos de renda fixa para outros participantes. São derivativos que funcionam como uma espécie de troca de risco de crédito. Um CDS pode ser de empresas ou de países. São também apelidados por um grande empresário _ e põe grande nisso _ de “complicativos”. Quanto menor o indicador, mais solvente é o país.

A inflação, que dispara pela alta das commodities, especialmente a cadeia de proteína animal e o aumento de energia e de combustíveis, apenas para citar alguns exemplos, é um complicador na gestão da política econômica. A arrecadação recorde dos estados, por seu turno, é um fator determinante do vigor da atividade produtiva e confirma as previsões do Ministério da Economia, a despeito de quem anda de capote de chuva em um dia ensolarado. Por essa razão, é declinante a Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG), que abrange o total dos débitos de responsabilidade dos governos federal, estaduais e municipais, junto ao setor privado, ao setor público-financeiro e ao resto do mundo. Há quem prefira olhar somente para a dívida bruta federal. A coluna admira a floresta, e não a árvore, para usar um ensinamento de autoajuda.

 (Pacífico Gestão de Recursos/Divulgação)

Nesse caso, o fator Bolsonaro – não vou usar o termo pejorativo “bozômetro” – é um empecilho para complicar a sua reeleição e aumenta a pobreza com a incerteza na economia. Políticos mais conservadores e que o apoiaram em 2018 acreditam que o presidente sequer vá para o segundo turno. É, porém, uma análise precipitada, como ensinava o velho mestre e cientista político Wanderley Guilherme dos Santos, que, antes da sua morte, em 2019, já estudava com rigor o fenômeno da falência das democracias e do aumento da desigualdade.

Os gráficos frenéticos e a perda que pode ser estimada em R$ 1 trilhão, caso persista a insegurança para o investidor. Com isso, compromete o PIB forte e gerações vindouras e aquela que envelhece, dona de sabedoria em todos os espectros da vida humana.

“O que para os garotos são as moscas, nós somos para os deuses: matam-nos por brinquedo”, uma das sentenças mais famosas de Shakespeare em “Rei Lear”.

A propósito: ex-presidentes da República procuraram recentemente militares para ouvi-los sobre o risco de um golpe de Estado, como informou o jornal Estadão. Perderam tempo, saliva e sola de sapato. Aos 27 anos, o jovem cientista político Wanderley Guilherme, muito antes de concluir o seu doutorado pela Universidade de Stanford (EUA), em 1979, escreveu o opúsculo “Quem dará o golpe no Brasil?”,  Civilização Brasileira, em 1962. É um clássico da ciência política.

Com a palavra, o professor que formou gerações de professores, profissionais e acadêmicos, no livro premonitório: “A implantação da ditadura do governo forte – que tende a ser, neste momento, a forma que será assumida pela ditadura em marcha – depende de parcelas ponderáveis da população brasileira aceitarem como necessária a constituição de tal governo. Quais as condições que poderiam levá-las – setores do proletariado menos politizado, predominantemente sobre suas divergências relativas, setores da burguesia nacional (os quais se mantêm resistentes a essa solução) – a aceitar a necessidade da constituição de um governo forte?”. O mestre elenca elas e, ao que consta, nem grandes democracias têm interesse nessa aventura bolsonarista, ao contrário de 1964. Pelo contrário: a imagem do presidente é péssima na percepção dos mais importantes chefes de Estado das nações capitalistas com eleições livres.

A não ser que algo perto de 580 mil pessoas, o mesmo número de mortos pela Covid-19, apareça na Avenida Paulista ou na Zona Sul do Rio, não há chance de ruptura institucional, mesmo que o presidente tenha o apoio de parte da Polícia Militar dos estados, em mais um desafio à democracia. Os mercados, porém, temem pelos atos desatinados do chefe de Estado e torcem pelas ações responsáveis do Ministério da Economia, da Infraestrutura, do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal. O Brasil precisa perseguir o crescimento, a distribuição de renda e a geração de empregos. Não somos moscas.

*Coriolano Gatto é jornalista e colunista da EXAME

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