João Teixeira Soares, o esteta da engenharia de um Brasil em construção


Teixeira foi, junto com Barão de Mauá, o grande empresário e engenheiro de grandes estradas de ferro pelo Brasil afora

Por Coriolano Gatto
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Há histórias de grandes empreendedores que ficam esmaecidas em jornais antigos ou livros que se esvaíram em meio à poeira de bibliotecas.

Perdem-se no chalé da memória.  A exceção à regra é a trajetória de Irineu Evangelista de Souza, o Barão de Mauá, contada com maestria  no livro de Jorge Caldeira (Companhia das Letras). Não à toa, no longínquo ano de 1942, o engenheiro Eugênio Gudin, fundador do curso de Ciências Econômicas no Brasil, faz uma homenagem ao amigo João Teixeira Soares (1848-1927), comparando-o ao grande empresário do Império.

“Só Mauá, cuja estátua hoje se defronta com Teixeira Soares, podia apresentar folha de serviços de tão alta valia”.

Gudin se referia aos dois monumentos, na Praça Mauá, no Rio de Janeiro. A homenagem foi por ocasião do avião batizado com o nome de JTS. A aeronave fazia parte da campanha nacional de aviação (“Dar Asas à Juventude Brasileira”),  organizada no governo Getúlio Vargas e idealizada pelo empresário e jornalista Assis Chateaubriand, durante a Segunda Guerra Mundial. Gudin ajudou a financiar “O Jornal”, o primeiro de uma série de dezenas de jornais, rádios e TV do conglomerado  Diários Associados, de Chateaubriand.

JTS foi junto com Mauá o grande empresário e engenheiro de grandes estradas de ferro pelo Brasil afora, tendo obtido êxito internacional com a construção do trecho Paranaguá-Curitiba, aos 34 anos, dada as enormes dificuldades do trajeto, no Paraná, que oferece uma vista paradisíaca. Da mesma forma, com o sócio Pereira Passos (antes de assumir a prefeitura do Rio, então Distrito Federal), ergue a Estrada de Ferro Corcovado, utilizando, para isso, o sistema de engrenagem conhecido por Riggenbach conforme relato do amigo e também engenheiro, Belfort Roxo.

Inaugurada em 1884 por Dom Pedro II, é a primeira ferrovia eletrificada do Brasil, em harmonia com o meio ambiente. No alto do morro, ficava o mirante Chapéu do Sol, substituído, em 1931, pelo Cristo Redentor, o maior cartão postal do Rio. Pela construção da Estrada de Ferro Paraná, o imperador Dom Pedro II quis oferecer-lhe um título de nobreza, o que não foi aceito por ser republicano, tendo recebido a comenda Imperial Ordem da Rosa, extinta em 1891 junto com todos os títulos nobiliárquicos. Em compensação, foi agraciado como Cavalheiro da Legião de Honra e de São Leopoldo da Bélgica e Comendador da Ordem da Coroa da Bélgica.

Diante da natureza hostil, JTS liderou projetos ferroviários em todo o país, como Vitória-Minas, onde escoa o minério de ferro, no Estado do Rio, Rio Grande do Sul, Mato Grosso, Paraná, Goiás e, claro, São Paulo. Com sólida formação em Economia, o empresário pôs em xeque  uma lei inventada por cabeças de planilha, de que o custo não deveria exceder  30 contos de réis por quilômetro (em 1900 corrigidos a preços de hoje seriam R$ 3,6 milhões), independentemente das condições do terreno, a finalidade e o volume a ser transportado. À guisa de comparação: o preço médio hoje é de R$ 6 milhões, podendo ser maior em razão da complexidade, já considerada a tecnologia que reduz o valor, diferentemente de 120 anos atrás.

Em tom jocoso, JTS pôs o apelido de linhas férreas guarda-livros, pois nelas os contadores se sobrepunham à lógica econômica. As missivas do empresário a Julio de Castilhos (o equivalente hoje a governador do Rio Grande do Sul) sobre a São Paulo-Rio Grande do Sul foi um “apelo vibrante”, de acordo com Gudin, que não encontrou o eco nas altas autoridades da administração pública. Era o Brasil sem pressa de crescer, como um filme estrelado hoje em muitos cinemas.

Soares pertence a uma geração de engenheiros que revolucionaram o sistema hídrico do Rio. Diante do calor de 42º na então capital do Império no verão de 1888, havia sofrimentos da população com o abastecimento irregular dos chafarizes. O episódio da água em seis dias foi um milagre da engenharia nacional, precisamente do jovem Paulo de Frontin, 29 anos, e Belfort Roxo, ambos formados na Escola Politécnica do Rio, onde Gudin estudaria mais tarde. Em vez dos seis meses previstos por empreiteiros _ olha a turma da bufunfa _ os engenheiros realizaram o projeto na data aprazada, trazendo as águas do Rio Tinguá, na Baixada Fluminense, à represa do Barrelão, no Rio, tudo canalizado em tubulação assentada na Estrada de Ferro Rio d`Ouro.

Essa energia de fazer, executar e tomar risco empresarial, a exemplo do Barão de Mauá, sendo este incompreendido a seu tempo e perseguido pelo Império, foi o propulsor de JTS, que construía estradas em regiões com febre amarela e tifo, duas doenças que mataram milhares de brasileiros. Não havia vacina. Segundo o testemunho do jornalista e escritor Abelardo Romero (1907-1989), que trabalhou em “O Jornal”, JTS, ao longo de 55 anos, construiu mais de 10.000 km de ferrovias, propagou a industrialização e defendeu a criação de bancos de créditos agrícola, hoje grandes potências do sistema financeiro nacional.

Numa época em que o trabalhador tinha poucos direitos, JTS oferecia prêmios de produtividade por etapas vencidas antes do prazo e dispensou os famosos sub-empreiteiros – ou gatos como se chama na linguagem do trambique.

Como se não bastassem as atividades empresariais em ferrovias e os compromissos internacionais, JTS recebeu permissão do governo junto com o sócio Antonio Rossi para explorar um serviços de transportes por avião (postal e de passageiros) entre as principais cidades do país, em 1918. E, assim, importou aparelhos Caproni e Hidro-Glisseurs - os aeroplanos.

A trajetória do empresário e engenheiro chamou a atenção de George Clemenceau, primeiro-ministro da França (1917-1920) e senador, que ficou conhecido por defender ideais republicanos e anticlericais. Tinha o epíteto de “O Tigre” dada a sua agressividade e irreverência, sendo atribuído a ele a queda de seis governos.

No fim da vida, disse Eugênio Gudin, JTS levava à casa do amigo Clemenceau o seu neto preferido, Alberto Soares de Sampaio, o empreendedor da petroquímica brasileira, a partir de 1947. Pediu que o político francês estendesse ao neto sua simpatia e a amizade que dava ao avô. Clemenceau pôs a mão no ombro do menino  e revelou que Soares fora o melhor homem que conhecera na vida.

No gesto carinhoso ao velho amigo, o economista dobra a homenagem, mencionando Chateuabriand, que compartilhava com ele o gosto pela literatura de Anatole France. Cita um pequeno trecho, em tradução livre, do clássico discurso na inauguração da  estátua de Ernest Renan, filósofo e historiador francês, morto em 1892.

“Ele era virtuoso da maneira mais rara; ele estava com graça. Tinha virtudes fortes e encantadoras. Ele foi atencioso e prestativo. Ele se esforçou para ser perdoado por sua superioridade e por força de simplicidade e deferência para com os outros. Preservou o bem que sempre foi dado em sua memória, e o mal foi ignorado. Poderíamos aplicar esse verso de Sófocles a ele: ‘Nasci para compartilhar o amor e não o ódio’”.
 
O Brasil precisa de pacificação e da humildade de JTS que, fazendo jus a esse princípio, discursou na inauguração de seu busto no Clube de Engenharia, Centro do Rio:

“Não encontro em minha carreira fato algum que tenha valor suficiente para recomendar-me a tão elevada distinção, e estas manifestações não me deixam outra impressão senão a de que atos de favor cativam mais do que atos de justiça”. Não era um homem afeito a elogios.
O mesmo empresário cuidava  com esmero da fazenda Santa Alda, às margens do rio Paraíba, em Minas Gerais, onde nasceu, na cidade de  Formiga. Para isso, usou técnicas modernas de adubação, o que levou, em 1911, Clemenceau a publicar, na americana “Ilustration”, artigo em que descreve o amigo como “um apaixonado pela terra e pelas frutuosas alegrias que ela pode dar”.

JTS definiu o seu prazer e o seu dever da seguinte forma:

_ Eu planto dinheiro a ver se colho café.

*Coriolano Gatto é jornalista e colunista da EXAME

Agradecimento: o signatário obteve o discurso original de Eugênio Gudin do economista e decano da PUC-Rio, Luiz Roberto Cunha, neto afetivo de EG. A brochura está em bom estado, mesmo com os seus quase 80 anos. Será doada para o projeto memória dos descendentes de JTS. Não ficará esmaecida pelo tempo.

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