Cuidado: Darth Vader está à sua espera na esquina da bolsa



Os economistas costumam ser prodigiosos em previsões e catastróficos em acertar a realidade

Nos velhos filmes mexicanos, havia sempre o mocinho e o bandido, “o malo de la película”.  Em todos os governos coexistem os dois personagens, que interpretam os seus papéis de acordo com a conveniência do espetáculo.

Em épocas de bonança, todos brigam para anunciar a boa notícia; em períodos de restrições, todos correm do palco, como gaviões famintos em busca da carniça. Os governos, à exceção das ditaduras (de direita ou de esquerda), são parecidos.

A tal da democracia barulhenta, incorporada pelas redes sociais e pela blogosfera, se encaixa em um axioma de um grande advogado e professor. Com a palavra Alfredo Lamy Filho, coautor da Lei das Sociedades por Ações: “Os piores anjos são os demônios que caem do céu”, dizia o mestre ao fazer uma referência a imagens de anjinhos fixadas em locais, digamos assim, não frequentados por famílias.

O demônio é um assunto que habita o universo dos grandes escritores, como o de Emily Dickinson, a americana nascida no século XVII, apontada como uma das maiores escritoras da humanidade. Ela viveu reclusa por 20 anos.

“Fosse fiel o Diabo

Era um amigo sem igual 

Pois ele tem a sua arte 

Mas não muda afinal 

Se tão só a perfídia 

Chegasse o Diabo a renegar 

Não se duvide que ele iria

 Divino se tornar”

(tradução de José Lira, Iluminuras, 2006).

O diabo de Lamy é revestido do figurino moral, enquanto o de Dickinson exibe tons refinados. É o Diabo que frequenta ambientes dos altos escalões de uma sociedade, disfarçando a suprema maldade por transitar como o Divino.

Lamy ensinou aos seus alunos na PUC-Rio a agirem em favor do interesse tanto do acionista controlador quanto do minoritário. Era um homem falante, que formou gerações e tinha um raro senso de humor, mesmo perto da fatalidade biológica, definida, certa vez, pelo economista Eugênio Gudin, em carta ao empresário Roberto Marinho, em 1986, sete meses antes de morrer, aos 100 anos. O mesmo Lamy, tão racional em uma sala de aula, teria dificuldades de entender o pesado jogo político nesta pandemia e o que nos espera em 2021. Parecerista rigoroso, não acompanhava as sutilezas mundanas. O seu prazer era decifrar os enigmas de uma companhia e sugerir soluções que pudessem engendrar o verdadeiro capitalismo. Lamy gostava de citar um pensador italiano: uma assembleia de uma companhia aberta é uma reunião de sacos de dinheiro. Não há qualquer exagero nisso.

O velho mestre estava muito longe desse Diabo que anda entre os humanos, com disfarces tão perfeitos que são capazes de enganar o mais preparado dos homens. Por isso, ele é o diabo, sedutor, falante e de propor ideias na manhã, revisá-las à tarde e, se der errado, mudar o discurso à noite. Em algumas empresas com ações negociadas na bolsa, essas figuras lançam mão de expressões técnicas em inglês, que no fundo contêm as maiores barbaridades, para ludibriar conselheiros independentes. Usam o sabre de luz como em “Star Wars”. São verdadeiros personagens do quilate de um Darth Vader, ele mesmo um antigo Jedi (guardião da paz e da luz), que transmuta  para o reino da maldade, em “Guerra nas Estrelas”. Nem preciso mencionar nomes, cara leitora e caro leitor. A CVM até rastreia eles, mas não age com a devida agilidade como foi escrito, nesta EXAME, pelo competente Mauro da Cunha, ludibriado no triste capítulo da Petrobras, entre 2013 e 2015, quando representava os independentes.

A grassa roubalheira arrastou a grande empresa, orgulho dos brasileiros, para o abismo. Os minoritários, como bons abutres, ganharam US$ 2,95 bilhões da estatal nos Estados Unidos (“class action”), o correspondente a quase a metade dos recursos do Bolsa Família, programa destinado aos paupérrimos. A CVM – explicou um dos poucos leitores desta coluna – se vê a braços dados com a imensa tarefa de se renovar, em consonância com os anseios maiores de toda uma nação: quer transparência, equidade e justiça para todos.

Não é fácil acompanhar as manobras de acionistas manipuladores ou de investidores inescrupulosos. Há ainda outros bichos nessa floresta. Via de regra, o órgão regulador está sempre muito atrás da indústria de maquinações de alguns agentes do mercado. Nem sempre consegue enxergar esses malfeitos, que no futuro causam perdas a investidores novatos e trazem prejuízos também à imensa maioria dos players que seguem a lei. Influenciadores, blogs e relatórios de qualidade duvidosa, noves fora entrevistas de famosos “especialistas”, ainda são investigados de forma superficial pela autarquia, criada em 1976 (Lei 6.385), no âmbito da Lei das Sociedades por Ações. É o cachorro correndo atrás do rabo.

Mas, afinal, quem costuma fazer o papel de “malo”? O economista Afonso Bevilaqua usou a expressão na sua saída do Banco Central, após três anos e meio de árduo trabalho como diretor de Política Monetária, na gestão de Henrique Meirelles, governo Lula 1. Bevilaqua, um discreto servidor público, diretor executivo no FMI, disse que foi demitido com frequência ao longo de 15 trimestres. O ex-professor da PUC-Rio agia como uma espécie de porta-voz de Meirelles, defendendo a ortodoxia diante de um cenário econômico conturbado – a Selic, em janeiro de 2003, chegou a impressionantes 26,5%, dada a dívida pública explosiva, e boa parte dela em dólar, uma herança de FHC 2. A inflação, no acumulado de doze meses, estava perto dos 20%. Bevilaqua era “demitido” por próceres do PT, inconformados com a postura do então jovem diretor do BC. Eram os bolsões sinceros, porém radicais, querendo tirar de cena o “malo”. A equipe era composta por outras feras: Rodrigo Azevedo, Eduardo Loyo, Beny Parnes e Alexandre Schwartzman, sob a batuta de Meirelles.

Os economistas costumam ser prodigiosos em previsões e catastróficos em acertar a realidade. O ex-ministro Delfim Netto, em um momento de racionalidade e de cinismo, dizia que no futuro todos parecerão mais inteligentes. As suas passagens por três governos militares – dois de linha duríssima – e na assessoria informal do ex-presidente Lula comprovam a sua tese.

Quem é o Diabo de Emily Dickinson? Aquele que fez a emenda da reeleição ou alguns espertos da Faria Lima que propõem aconselhamentos sem qualquer base técnica? É melhor ter a sinceridade de um Bobby Axelrold, protagonista da série “Billions”, da Netflix,  um notório manipulador de Wall Street, que consome US$ 500 mil por ano em roupas no estilo smart casual. Axe tritura a sua bela namorada e sócia em um negócio bilionário, ao que ela responde ao antigo mestre no fim da reunião do conselho de administração da companhia: “Sabedoria de oráculo é melhor quando o oráculo não acabou de dilacerar o seu ânus”. O ex-namorado destruiu o seu sonho. Axe, dono de 10 bilhões de dólares, completa em outro episódio: "Eu sou como um Braco alemão farejando um pato". O diabo pode estar ao seu lado.

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