Blockchain já pode estar no alimento que você come

A tecnologia blockchain ajuda a financiar o pequeno agricultor, reduzir a burocracia do comércio exterior, evitar a produção em áreas protegidas e muito mais

Já faz algum tempo que a tecnologia entrou na paisagem agrícola. O GPS, por exemplo, se tornou comum em diversas lavouras para obtenção de dados sobre o solo e o clima, o que permite o tratamento mais eficiente da terra. Nessa onda, está chegando também o blockchain (inclusive no Brasil). Isso significa usar os blocos para lidar com o que cada um de nós come e com um setor que é a fonte de renda de 40% da população mundial.

Os casos de uso mostram que a tecnologia blockchain ajuda, por exemplo, a financiar o pequeno agricultor, que tem pouco ou nenhum acesso a financiamento, a reduzir de semanas para horas a burocracia do comércio exterior e a evitar a produção em áreas protegidas contra o desmatamento. Isso significa que, de quebra, a tecnologia pode ajudar os países a atingirem alguns dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas (ONU), como o de trabalho decente (8) e proteção dos ecossistemas terrestres (15).

Estudos apontam que seu uso na produção e nas cadeias de suprimentos de alimentos globais chegou a cerca de 130 milhões de dólares em 2020 e pode dar um salto de mais de 600% para 950 milhões de dólares em 2025. No Brasil, há projetos interessantes desde a semente até as criptos.

Um desses projetos é da startup SBR Prime, que consegue fazer o rastreamento e monitoramento da colheita desde a semente até a hora em que sai da porteira. Com a associação com a Guep, de soluções para transporte, o serviço se estende pela cadeia de suprimentos e é possível saber, por exemplo, quem vai dirigir o caminhão que levará o produto da fazenda à fábrica de beneficiamento, as condições do transporte, a rota feita e data e hora de chegada à planta. Todas as informações são registradas em blockchain.

Redução de perdas na produção

Um dos resultados desse monitoramento de produtos do agronegócio poderá ser a redução na perda do valor da produção. Essa perda, no mundo, supera 50% entre a colheita e a venda e acontece por motivos diversos, de pragas a ineficiência e roubos de cargas.

No caso do Brasil, isso pode ajudar também a criar um histórico agronômico integrado das propriedades agrícolas, como existe em outros grandes produtores. Estados Unidos (EUA) e Austrália, por exemplo, colhem dados há décadas e estão transformando-os em inteligência artificial para melhorar a eficiência da lavoura e mitigar riscos de crédito, diz o fundador da SBR, Eduardo Figueiredo. Aqui, os dados que existem estão dispersos.

Tudo isso quer dizer que, no final das contas, um dos impactos do blockchain na agricultura é a mitigação de riscos. Isso é crucial para qualquer negócio, principalmente para os pequenos agricultores. Em geral, eles vivem da raspa do tacho, sem acesso a crédito para se modernizarem e sem acesso à informação sobre práticas mais eficientes. Hoje, 2 bilhões dos desbancarizados no mundo são esses produtores, que cultivam de dois a três acres de terra em família. Metade vive com menos de 1,25 dólar por dia. Assim, fica difícil dar um passo adiante.

Blockchain para aumentar o crédito

A Moeda Seeds, projeto em blockchain criado no Brasil, busca dar acesso a microcrédito para o pequeno produtor. A plataforma levanta recursos de quem quer investir em projetos sustentáveis. Para tanto, criou também um token e tudo é registrado em blocos. Portanto, do lado do investidor, é possível acompanhar o destino do dinheiro e o desenvolvimento dos projetos financiados. Do lado do empreendedor, garante-se financiamento de forma mais ágil e sem intermediários financeiros.

Uma outra solução blockchain que pode destravar ou aumentar o crédito na agricultura para qualquer produtor é o uso de contratos inteligentes (smart contracts). Com eles, é possível garantir que o pagamento será feito assim que o produto for entregue. É colocar os agricultores em outro patamar de confiabilidade perante os bancos.

Até mesmo nas compras blockchain está sendo usada. Os governos da Bahia e do Rio Grande do Norte desenvolveram o aplicativo SOL (Solução Online de Licitação) para contratações para associações e cooperativas. O app está dentro de um programa de financiamento a custo zero da produção de pequenos agricultores, como famílias, índios e quilombolas.

Uma de suas funções é facilitar a busca por fornecedores, que fazem suas ofertas pela plataforma. A checagem de dados e documentos dos interessados é digitalizada e mais rápida. Com isso, há maior controle e transparência do processo, o que evita fraudes. Entre março e setembro de 2020, a Bahia fez 600 licitações pelo SOL.

Venda e embarque de arroz

Na cadeia de produção agrícola, blockchain também já chegou na venda dos produtos. A Rice Exchange é um marketplace desenvolvido nessa tecnologia para a negociação internacional de arroz, a comida mais vendida no mundo. A plataforma conecta produtores e compradores. Embora seja para agricultores de todos os tamanhos, serve ainda mais para a inclusão no comércio exterior daqueles de menor porte, que não têm estrutura que facilite as negociações, a burocracia e o transporte e lidam com vários intermediários.

Rodolpho Koch, que fica no Brasil e é responsável pelo atendimento global aos clientes, alegou que a Rice Exchange pode reduzir de semanas para horas a atual burocracia, que é baseada em papel e passa a ser digitalizada e registrada em blockchain para dar transparência e segurança dos dados. A plataforma está conectada com operadoras marítimas, como a Maersk, empresas de inspeção e seguradoras, para agilizar ainda mais o sistema.

Acelerar os processos e ter mais transparência e dados confiáveis fez também as maiores traders agrícolas criarem a Covantis. Baseada na plataforma Ethereum, ADM, Bunge, Cargill, COFCO, Louis Dreyfus Company e Glencore lançaram, no Brasil, um projeto global, que começou com a exportação de soja a partir do porto de Santos. Uma das estimativas das empresas é que com blockchain serão automatizadas 60% das tarefas e as transações serão 70% mais rápidas.

Tem também quem trabalha na ponta do investimento em commodity. A cooperativa Minasul deverá lançar, neste semestre, a primeira criptomoeda do mundo lastreada em café e vendida em bolsa. O produto virá, a princípio, de seus cooperados. Por enquanto, a Coffee Coin está em teste como uma moeda digital para compras na loja da Minasul e não está em blockchain. Os cooperados podem comprar qualquer produto na loja, até um trator. Depois da cripto, a cooperativa vai começar a trabalhar na rastreabilidade do produto desde a plantação. A intenção é ter tudo rastreado em blockchain do plantio à moeda em bolsa.

Consumidores puxam uso de blockchain

Muitos dos usos de blockchain estão relacionados ao crescente número de consumidores conscientes. De acordo com a IBM, uma pesquisa mostrou que 57% dos consumidores trocariam de hábito de consumo para comprar produtos mais sustentáveis. Esse aumento está relacionado até à questão geracional. Os mais jovens têm um perfil mais voltado a comprar o que é feito de forma sustentável. Assim, querem informações como origem do produto, se a produção foi sustentável e se o agricultor teve remuneração justa. Isso explica porque a Starbucks, por exemplo, usa blockchain para informar a procedência do café e onde foi torrado. Os dados estão num QR Code que os consumidores dos EUA podem acessar.

Muitos consumidores se dispõem a pagar mais por aqueles produtos que cumprem suas exigências. Isso também anima as empresas a adotar blockchain e, espera-se, pode fazer com que paguem melhor o agricultor.

Não é mais possível negar que o planeta tem um sério problema ambiental. Nem que os produtores de menor porte são a parte mais fraca da cadeia agrícola. Nem que há muito papel e falta de transparência nas transações agrícolas. Por isso, para resolver essas questões, recomenda-se olhar para blockchain. A solução pode estar na tecnologia.

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