O que o jogo de pôquer ensina sobre polarização

A democracia não será admirada se não der conta com um mínimo de ordem e justiça dos problemas que afligem o povo

Em 1990, Larry Diamond publicou um artigo sobre três paradoxos da democracia. O primeiro trata da tensão permanente entre conflito e consenso. Não há democracia sem confronto de ideias, mas o sistema só funciona se as partes forem capazes de chegar a um acordo. O segundo contrapõe representatividade e governabilidade. De um lado, é preciso governar em nome de todos, sem ser capturado por grupos de interesse. De outro, o governo tem que ter energia para decidir e agir. A tentativa de agradar gregos e troianos tende a gerar paralisia.

O terceiro paradoxo opõe consentimento e efetividade. Governos só são legítimos com o ok dos governados, mas estes precisam perceber vantagens ao delegar o poder. A democracia não será admirada se não der conta com um mínimo de ordem e justiça dos problemas que afligem o povo. O dilema é que para isso acontecer é preciso promover reformas impopulares que, ao mudar regras e mexer com direitos e privilégios, põem em risco a legitimidade e, por tabela, o consentimento – especialmente em países menos desenvolvidos e heterogêneos.

É preciso sorte para misturar corretamente os temperos que produzem democracias estáveis e fecundas – como em um Dry Martini, um tiquinho a mais ou a menos de vermute estraga a coisa. É admirável, portanto, que vários países democráticos tenham progredido após a Segunda Guerra, mas a julgar pelo naipe dos líderes que vem ganhando eleições é provável que a sorte tenha acabado. Dizem que as democracias tropeçam porque os governos não ouvem o povo, mas na era das redes sociais sem filtros, o embaraço pode ser justamente o oposto – ao invés de temperar os exageros individuais, saindo pelo meio, o sistema tem caminhado para as pontas e o eleitor mediano deixou de ser representado.

Em 2001, o jurista e escritor americano Cass Sunstein publicou um livro chamado “Republic.com” no qual vislumbrou um mundo marcado pela desunião, onde países e grupos de indivíduos viveriam isolados em enclaves virtuais. Não deu outra. Vinte anos depois estamos atolados em uma condição paradoxal em que um instrumento extraordinário que permite acesso imediato ao estoque de conhecimento produzido pela humanidade serve para emburrecer, transformando o direito de livre expressão em uma das maiores ameaças ao funcionamento das democracias.

Desconheço barômetros que meçam a evolução da polarização política no mundo, mas se a crescente cisão no legislativo americano servir de guia, é provável que o nível de desentendimento global seja elevado e crescente. Graças a uma metodologia desenvolvida no início dos anos 80 por Keith Poole e Howard Rosenthal, o departamento de ciências políticas da Universidade da Califórnia em Los Angeles traduz em números os perfis ideológicos dos legisladores americanos. Faz mais de 100 anos que eles não se encontram tão antagônicos e a radicalização vai nas duas direções – os republicanos nunca foram tão conservadores e os democratas não tão liberais desde 1897 e é claro que essa polarização reflete a existente na sociedade.

Polarização em si não seria um problema se decorresse de aprendizado. Pelo contrário, seria ótimo se os diversos grupos avaliassem os pontos de vista a partir de argumentos racionais, baseados em informações críveis. Esse ideal pressupõe abertura mental ao contraditório e disposição de mudar de opinião. A realidade não tem nada a ver com isso. A polarização que define o mundo vem de uma dinâmica de grupos perversa originada em vieses cognitivos profundos. Ao invés de caminhar na direção da esquerda, a direita vai cada vez mais para a direita e vice-versa, tornando cada eleição uma escolha de Sofia.

Annie Duke é uma ex-jogadora de pôquer bem sucedida que hoje ganha a vida contando o que aprendeu em bares esfumaçados de Montana e torneios em Las Vegas. “Thinking in Bets”, que, livremente, poderia se chamar “Pensando em Apostas”, explica de forma didática e bem humorada os fundamentos das decisões com incerteza. Usa como gancho as semelhanças da vida real com os jogos de pôquer, pois os discernimentos que fazemos funcionam como apostas cujo resultado não depende 100% de nossos esforços e habilidades.

Ao escolher um caminho ao trabalho, seguir uma profissão ou acreditar em um partido ou político, fazemos escolhas cujos resultados são sujeitos a surpresas, às vezes decisivas. Diante da impossibilidade de eliminar as incertezas, o segredo é apostar de acordo com o grau de convicção em cada momento, sem receio de reavaliar a crença no futuro, evitando comprometer fichas como se o resultado amanhã fosse certo visto de hoje. Resumindo, é preciso ter um pé atrás. Parece óbvio, mas não é. Mudar de opinião não é fácil: requer disciplina, consciência das ambiguidades do mundo e reconhecer a própria falibilidade. O ser humano não é assim.

O que isso tem a ver com o cenário trágico de polarização? Para Cass Sunstein, a causa primordial viria do acesso restrito a visões alternativas de mundo pela propensão das pessoas a se trancarem em grupos virtuais homogêneos. Se fosse apenas isso, o remédio seria simples: bastaria criar mecanismos para submeter os grupos à diversidade. Annie Duke mostra que o buraco é mais profundo, pois, na verdade, não somos treinados para encarar as complexidades do cotidiano com maleabilidade e humildade – traço que os jogadores de pôquer aprendem rapidinho. Não há espaço em nossas cabeças para ideias opostas. Temos um cérebro equipado por mecanismos que nos tornam avessos ao que não se encaixa e, por isso, somos teimosos.

Teimosia em uma mesa de pôquer é fatal. É desagradável ouvir o adversário duvidar quando apostamos, mas isso cria a disciplina necessária para repensar convicções que evidentemente podem estar erradas. Quando as cartas são mostradas, a verdade vem à tona e quem perde aprende uma lição, às vezes a um custo elevado. Não adianta o derrotado chamar o oponente de “comunista” ou dizer que mostrou um jogo “fake”. Existe o blefe, é claro, mas é impossível seguir adiante mentindo o tempo todo. O mundo de hoje premia o enganador.

A raiz do problema é que o custo de nutrir crenças irracionais no debate público não é facilmente percebido por quem as mantém. Os filósofos Geoffrey Brennan e Loren Lomasky explicaram em “Democracy and Decision” que as pessoas tomam partido mais pelo valor expressivo do que pelo valor instrumental da opinião. Decidem por A ou B como se estivessem escolhendo um time de futebol. Feita a escolha, relutam em mudar. Muitos, para não dizer a maioria, têm opinião formada e definitiva sobre assuntos complexos apenas para seguir a torcida na qual decidiram se inserir. Não fazem ideia do que falam e não se dão ao trabalho de entender, mesmo que superficialmente. Que dirá mudar de visão diante de evidências no sentido contrário. Se os custos das apostas fossem explícitos, talvez o tempo investido em realmente entender o que está em jogo fosse maior nas questões econômicas, políticas e culturais. A restrição não é de acesso, mas de disposição. O mal, que afeta as sociedades mais bem educadas, é mortal nas menos.

A reforma educacional necessária obviamente não é doutrinar numa ou noutra direção. Enquanto não aprendermos a pensar objetivamente e a selecionar informações de boa qualidade, seremos prisioneiros das crenças absurdas cuspidas por políticos hábeis, sempre que as questões envolvidas não forem equivalentes a somar dois e dois e, cada vez mais, até mesmo nesses casos. Em uma pesquisa do ano passado feita pela Ipsos, 55% dos brasileiros afirmaram não valer a pena ouvir pessoas que pensam diferente e 65% não se sentiam confortáveis em dividir opiniões políticas com os outros – a amostra incluiu pessoas com nível de renda e educação superiores à média do país. Isso sugere polarização do pior tipo, melhor apenas do que a apatia completa.

Bertrand Russell disse no início dos anos 50, “nossas grandes democracias ainda tendem a pensar que um homem estúpido tem mais chance de ser honesto do que um homem inteligente e os políticos se aproveitam desse preconceito fingindo ser ainda mais estúpidos do que a natureza lhes fez ”. Se a democratização da informação não resolve esse problema, não sei o que fará.

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