A gripezinha em retrospecto

Dado o caráter inusitado da crise, sorte dos países que puderam contar com uma liderança competente para encará-la

Janeiro é mês de palpitar sobre o ano que se inicia, mas a monstruosidade da crise provocada pela pandemia convida também a apreciar o revés em perspectiva histórica. Para tanto, é conveniente como ponto de partida analisar a trajetória do PIB mundial, uma medida agregada do valor dos bens e serviços produzidos por todos os países. Trata-se, é claro, de uma forma superficial de avaliar o impacto da COVID-19. Como se sabe, a pandemia afetou as famílias em outras esferas além da econômica, sem falar de seus efeitos desiguais, entre os países e dentro deles.

Os dados recentes são sempre melhores, mas, com boa vontade, sobretudo quando o foco é o todo, pode-se olhar a história desde 1870. Observando o jeitão do crescimento durante essa janela temporal, é possível dividir os 150 anos em quatro períodos. O primeiro, de 1870 a 1913, foi marcado por expansão moderada, de 3,1% ao ano, com poucos vaivéns. O segundo, entre 1914 e 1947, é o período de menor crescimento, de 2,8% ao ano, e o de maior turbulência, com variabilidade duas vezes maior que no período anterior.

Entre 1948 e 1973 foi só alegria. A economia global cresceu 5,2% ao ano, com um terço da variância do período anterior. Nessa fase, o ano mais fraquinho teve expansão de 3,3%. O quarto período se iniciou em 1974 e vem até hoje. Nessa etapa mais recente, a economia tem evoluído em ritmo moderado, de 3,5% ao ano, com variabilidade intermediária. Será preciso uma ou duas décadas para saber se o padrão daqui para se manteve.

O ponto que mais chama atenção é que as últimas cinco gerações viram a produção mundial diminuir em apenas 10 anos – ou seja, quando se trata o mundo como uma coisa só, esperar crescimento econômico é como prever dia de sol em Brasília. As recessões de 1908 (-0,2%) e 2009 (-0,1%) foram modestas e tiveram origem em pânicos financeiros nos EUA. Sete das oito restantes surgiram no contexto de três eventos muito traumáticos: (i) a 1ª Guerra, que provocou queda de atividade de 3,6% em dois anos não sucessivos (1914 e 1917); (ii) a Grande Depressão, com retração acumulada de 6,5% entre 1930 e 1932, função em boa parte de barbeiragens de política econômica; e (iii) a 2ª Guerra, com mergulho total de 7,5% em 1945 e 1946.

A crise atual, cujo impacto final sobre o PIB ainda é desconhecido, completa a coleção. Em outubro passado, o FMI projetou tombo de 4,4% em 2020, colocando a calamidade econômica provocada pela pandemia abaixo apenas das observadas nos anos 30 e no pós-guerra. Pelas minhas contas, com base em números consolidados até setembro e estimativas de consenso para o final do ano, pode ser que a queda de 2020 tenha sido menos intensa, mesmo levando em conta o provável tropeço de países europeus com a segunda onda. Mas, a menos de uma reviravolta espetacular dos números, a crise da gripezinha deve manter o bronze dos últimos 150 anos.

Dado o caráter inusitado da crise, sorte dos países que puderam contar com uma liderança competente para encará-la. No início, o mundo dormiu no ponto, mas a partir do segundo trimestre de 2020 a maioria havia caído na real, correndo para virar o jogo de três formas: (i) aplicando medidas de distanciamento e recomendando cuidados básicos, (ii) acompanhando o aprendizado científico e (iii) dando estímulos econômicos. Nem todos os países dosaram (i), (ii) e (iii) da melhor forma. Nos casos mais excêntricos, apostas pesadas em (iii) foram contrabalançadas por campanhas (implícitas e explícitas) contra (i) e (ii).

Os enormes e agressivos estímulos econômicos salvaram a lavoura – sem eles, o desastre teria sido inimaginável. A ciência deu um show, produzindo vacinas em tempo recorde. A imprensa profissional e séria foi essencial, fornecendo informações sobre os avanços da pesquisa e da doença e, com isso, salvando vidas (ao menos as que souberam separar o joio do trigo).

De outro lado, não bastassem os placares sinistros de contaminações e mortes, o besteirol também correu solto. Observar pseudocelebridades jogarem gasolina na fogueira faz parte. A maioria age por ignorância e, de resto, a civilização tem avançado a despeito do punhado de aproveitadores que fazem da exploração da incultura um meio de vida, sejam eles “conservadores” ou “progressistas”, dá no mesmo. Na verdade, um compensa o outro.

Porém, líderes de países do G20 participaram ativamente de campanhas de desinformação – isso é novidade. Zurrar é um direito do indivíduo, mas a COVID-19 escancarou que o tempo em que as instituições sobrepujavam mandatários ineptos ficou para trás. Não se trata só de lamentar falta de decoro, desrespeito à “liturgia do cargo”, etc. O custo da irresponsabilidade dos malucos aparecerá no longo prazo e pesará, como sempre, nos ombros dos mais humildes – dos paradoxos da democracia, o incentivo ao populismo curtoprazista é o mais nocivo.

A boa notícia é que a vacina está aí e, aos trancos e barrancos, o trem começa a andar. A vasta maioria dos países correu rapidamente para a tábua de salvação. É cedo para declarar vitória, mas, usando como guia estimativas recentes de crescimento para as principais economias, o PIB global deverá aumentar 5% em 2021, talvez mais dada a extensão do pacote que Biden quer emplacar e os bons resultados do PIB Chinês. Como desconfio que o colapso de 2020 tenha sido menor do que 4%, não será surpresa se, no final das contas, o PIB de 2021 superar um pouco o de 2019. Há vários poréns, mas isso é assunto para outros textos.

Uma questão importante é que o PIB não é uma geleia homogênea. Durante a crise, a circulação de bens foi relativamente bem, mas a oferta de serviços patinou, especialmente os prestados às famílias. Enquanto a imunidade não trouxer confiança, a discrepância persistirá. Os economistas têm falado singelamente de “recuperação em K”, forma criativa de ilustrar a divergência crescente entre as partes. Essa simplificação adoça um pouco a realidade, pois, recuperação em K não é recuperação. O desemprego gigantesco é um drama persistente que exigirá a manutenção de estímulos e tenderá a gerar tensões sociais. Nem todos os países têm recursos para bancar tanta gente ociosa por muito tempo e, infelizmente, o caminho à imunização é longo.

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