Enzo Ferrari, lados A e B

Biografia disseca vida do “último dos grandes titãs do automobilismo”

Não tivesse acabado de ler Ferrari, o homem por trás das máquinas há cerca de um mês, certamente este livro seria um dos meus escolhidos para mergulhar nas horas de folga durante o isolamento imposto pelo corona vírus. Ao contrário das inúmeras obras sobre uma das mais veneradas marcas de carro do mundo, que exploram o produto Ferrari, o título em questão, de 1991, foca no homem Ferrari, figura carismática, genial, intempestiva, sedutora e com profunda noção do que seu nome, sua montadora, seus carros e suas vitórias nas pistas significavam para o imaginário popular.

Como pano de fundo, a obra é uma viagem de fôlego no automobilismo europeu no século XX, com seus eletrizantes pilotos, como Tazio Nuvolari, Alberto Ascari, Juan Manuel Fangio.

O prefácio adianta ser controverso o livro escrito por Brock Yates, jornalista e roteirista de TV norte-americano com longa experiência no mundo dos carros e competições. Os historiadores elogiaram o rigor da pesquisa, enquanto os fãs torceram o nariz pela descrição da personalidade de Ferrari, visto como vaidoso em excesso, rancoroso e obsessivo. O autor, porém, reconhece que até os aspectos menos elogiáveis da trajetória do mito das pistas teve sua razão de ser: se o homem tivesse sido fraco ou titubeante, o carro não teria chegado onde chegou.

Com suas 548 páginas, Ferrari, o homem por trás das máquinas é um livro que requer  fôlego do leitor. Traz inúmeros fatos, datas, nomes de pessoas, lugares, marcas e episódios que podem soar como semelhantes. Daí esta nossa época de retiro forçado ser ideal para se aprofundar nesta leitura sem perder o prumo.

Capa de "Ferrari: O Homem por Trás das Máquinas" Capa de “Ferrari: O Homem por Trás das Máquinas”

Capa de “Ferrari: O Homem por Trás das Máquinas” (BestSeller/Divulgação)

Aqui vai um aperitivo:

Em grande parte de sua vida as aparições públicas de Enzo Ferrari fora eventos minuciosamente planejados, criados para realçar a imagem de grande homem. Sua presença era poderosa, absolutamente confiante em sua capacidade de dominar as multidões de clientes reverentes, fornecedores ansiosos, jornalistas ocasionalmente belicosos e admiradores curiosos.

Até o fim de sua vida, Ferrari permaneceu preso às suas origens do final do século XIX e início do século XX. Ele aprendeu a se comunicar no estilo floreado da velha Itália, sempre em termos de bajulação e desprezo, nunca lidando diretamente com um assunto que podia ser tratado de modo indireto e sem a revelação de seus sentimentos verdadeiros.

Ettore Bugatti era apenas um entre os inúmeros excêntricos ostentosos, nobres dissolutos, playboys, plebeus sonhadores e egocêntricos impassíveis que povoavam o mundo do automobilismo europeu na década de 193. (…) Em contraste, Enzo Ferrari ainda era um artífice simples e sem graça, trabalhando em uma pequena oficina, em um fétido fim de mundo italiano.

Com os cofres abarrotados de liras da Fiat, Enzo Ferrari estava pronto para cobrar algum tributo dos zombadores que o ridicularizaram nos últimos três anos.

Enzo Ferrai, o último dos grandes titãs do automobilismo, tinha partido, para nunca mais ser substituído.

Ferrari, o homem por trás das máquinas

Autores: Brock Yates com epílogo de Stacy Bradley

Número de páginas: 548

Preço: R$ 80,00

Onde comprar: amazon.com.br


Chico Barbosa é jornalista com doutorado em Comunicação e Semiótica, escritor e editor da CBNEWS. Instagram: @chico.barbosa

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