As “Payroll Fintechs” e a inovação em benefícios corporativos

Novo subsegmento promete revolucionar a forma como os salários são recebidos, além de agregar outras facilidades e vantagens para os colaboradores

Desde o seu surgimento, o fenômeno fintech já invadiu diferentes áreas das nossas vidas, transformando a maneira como pagamos, investimos, gerenciamos nossas finanças, contratamos seguros e operações de crédito. Na incansável busca pela solução dos problemas que enfrentamos no dia a dia, novas fronteiras, ainda mais específicas, estão sendo exploradas por empreendedores do setor. Uma das áreas que estão sendo visadas no momento são as de folha de pagamentos e gestão de benefícios corporativos, uma vertente que está sendo chamada lá fora de “Payroll Fintech” — tema que, inclusive, abordei no meu texto anterior, como uma das tendências para o segmento fintech em 2021.

A indústria de soluções voltadas para recursos humanos e gestão de folha de pagamentos é um mercado multibilionário em países como os Estados Unidos. Por lá, companhias que atuam nesse espaço vêm crescendo de forma sólida ao longo dos últimos anos, fazendo não só o depósito dos salários dos funcionários em suas contas, mas também tarefas como realização de cálculos de horas trabalhadas, cálculos de impostos, geração de documentos comprobatórios para órgãos de fiscalização, e criação de relatórios gerenciais diversos. Alguns players, inclusive, estão neste mercado há décadas, como é o caso da ADP, da Paychex e da Insperity.

Com o passar do tempo, algumas startups surgiram trazendo outras soluções para esse terreno, como foi o caso da Earnin (que inicialmente se chamava Activehours) em 2012. A empresa criou um aplicativo que permitia que seus usuários sacassem pequenas quantias de seus salários antes do dia de pagamento, quantias essas que são referentes às horas já trabalhadas e adquiridas, mas que só seriam recebidas em outros momentos ao longo do mês. A Earnin não cobra juros e nenhuma taxa escondida por seu serviço, batizado de Earned Wage Access - EWA (algo como “acesso ao salário já ganho” em tradução livre), sendo que a comissão paga é definida pelo usuário de forma voluntária baseada em reciprocidade dentro de um contexto comunitário.

Depois da Earnin, surgiram várias outras startups como a DailyPay (que pode ser integrada a outros sistemas provedores de soluções de gestão de folha de pagamento do mercado, atuando apenas com o produto EWA) e a Gusto (que se propõe a ser uma provedora completa de soluções de Payroll e benefícios para pequenos negócios). No fim do dia, o EWA visa ser uma alternativa justa ao Payday Loan (produto similar ao crédito consignado aqui do Brasil) e de outras modalidades de crédito mais caras. É importante ressaltar que a modalidade Earned Wage Access teve grande apelo durante a pandemia e, por outro lado, o Google chegou a banir anúncios de companhias que praticavam taxas abusivas em suas ofertas de Payday Loans (medida que passou a valer a partir de 13 de julho de 2020, auge da crise provocada pelo Covid-19).

Em suma, as soluções enquadradas no segmento Payroll Fintech podem incluir o pagamento de salário sob demanda (o já explicado EWA), o próprio empréstimo consignado (considerando a necessidade de tickets maiores que não possam ser supridas via EWA), e até o recebimento de salário via criptomoedas. Ao redor desses produtos, estão sendo criados ecossistemas mais amplos, que incluem produtos de previdência, marketplace de produtos diversos com condições especiais, cartões de benefício, dentre outros.

O desenvolvimento das Payroll Fintechs no Brasil

Por aqui já temos alguns casos interessantes surgindo. A Xerpa, por exemplo, é uma das representantes dessa nova safra de fintechs que estão explorando o nicho de folha de pagamentos. A Empresa nasceu em 2015 como um software de gestão voltado para a área de recursos humanos, identificando fatores-chave para a manutenção do bem-estar dos funcionários, aumento da produtividade e redução dos índices de absenteísmo e turnover das empresas clientes.

Já em 2016, a Xerpa começou a observar o crescimento da norte-americana Earnin e de seu modelo de Earned Wage Access, que passou a se popularizar bastante e crescer nos Estados Unidos naquela época. Ao invés de pivotar ou até criar uma nova empresa para atuar nessa vertente, a Xerpa adicionou mais uma frente de negócios, batizado de Xerpay, direcionando a empresa rumo ao mundo fintech e a um modelo B2B2C (extrapolando a atividade B2B praticada até então junto às empresas clientes, apenas). No final de junho de 2019 a solução foi lançada e, em 2020, a pandemia fez a demanda pelo produto explodir.

De lá para cá, várias utilizações interessantes do seu produto de EWA foram mapeadas pela Xerpa, como, por exemplo, a obtenção de descontos para pagamentos antecipados de faculdade e aluguel. Segundo o CEO da companhia, Nicholas Raise, essas informações (e outros dados obtidos da jornada dos colaboradores junto à plataforma) serão inputs importantes para a criação de novos produtos e parcerias com o intuito de expandir o ecossistema de soluções voltadas ao bem-estar dos colaboradores.

Nas palavras de seu fundador, a Xerpa é uma fintech orientada pela missão de revolucionar a forma como as pessoas são pagas, algo que pode envolver também o crédito ou outras soluções inovadoras, ajudando os colaboradores a ter mais flexibilidade financeira. Para isso, viabilizam suas ofertas também através de parceiros, característica típica dentro desse novo universo financeiro “plataformizado” para o qual estamos nos movendo.

Outra empresa que também ingressou no segmento de Payroll Fintech foi a Creditas, com a criação da sua divisão Creditas@Work. Dentre os produtos ofertados encontram-se soluções como antecipação de salário, crédito consignado, cartão de benefícios, loja para compra parcelada de produtos de alto ticket e previdência (produto que será lançado oficialmente em breve). O impulso da entrada da companhia neste nicho se deu com a compra da fintech Creditoo, focada em crédito consignado, no ano de 2019.

Investimentos no setor e próximos passos

A QED Partners, um dos fundos de venture capital que investiu na Xerpa e também na Creditas, parece bastante otimista com esta tese, visto que já aportaram em outras fintechs deste segmento mundo afora, como a Wagestream (EUA) e a Minu (México). A Sequoia Capital e a Index Ventures também fazem parte do grupo de VCs que estão posicionados em um nicho que, de acordo com especialistas, ainda tem muito espaço para crescer.

Segundo dados da consultoria Gartner, 20% das grandes empresas com trabalhadores horistas vão disponibilizar o acesso ao salário sob demanda para seus colaboradores até o ano de 2023. Atualmente, menos de 5% dessas grandes companhias o fazem. A tradicional dinâmica do RH das empresas que (por razões óbvias relativas à complexidade do processo) não conseguem fechar a folha todos os dias, acabará sendo destravada com o auxílio das Payroll Fintechs, que conseguem fazer essa tarefa praticamente em tempo real. Essa possibilidade acaba então sendo agregada como benefício corporativo para os colaboradores da companhia, que percebem grande valor no recebimento de salário sob demanda.

Olhando para a atuação dos antigos provedores de software deste mercado, será necessário atuar rápido para direcionar seus modelos de negócio rumo a uma realidade fintech, embutindo soluções financeiras e explorando oportunidades nesse terreno, principalmente no que diz respeito ao aproveitamento da rica base de dados referentes a recursos humanos (as quais têm amplo acesso) para acelerar essa via. Já do lado dos bancos, que ainda trabalham folha de pagamentos de uma forma antiquada e veem o crédito consignado como principal produto de prateleira, será necessário pensar essa vertente de forma mais abrangente (muitas vezes lançando mão de parcerias específicas), já que os produtos ofertados não possuem tanto apelo quanto as soluções prestadas pelas Payroll Fintechs, que seguem avançando em várias partes do mundo com seus modelos inovadores de atuação.

Ao que tudo indica, a folha de pagamentos será um novo terreno de batalha daqui por diante, e a barra em termos dos serviços prestados não para de subir. Definitivamente, essa é uma tendência para ficarmos de olho daqui por diante.

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