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Praga que avança do México desafia estratégia de Trump para conter inflação da carne

Governo americano intensifica medidas de contenção para evitar que a infestação se espalhe e afete a produção de carne bovina no país

Boi no Texas (EUA): USDA estima que a praga possa causar prejuízos de até US$ 1,8 bilhão à economia do Texas. (Getty Images)

Boi no Texas (EUA): USDA estima que a praga possa causar prejuízos de até US$ 1,8 bilhão à economia do Texas. (Getty Images)

César H. S. Rezende
César H. S. Rezende

Repórter de agro e macroeconomia

Publicado em 8 de junho de 2026 às 12h25.

Última atualização em 8 de junho de 2026 às 15h56.

O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) confirmou nesta segunda-feira, 8, mais três casos da mosca-varejeira-do-novo-mundo (New World Screwworm) no Texas, aumentando a preocupação das autoridades com o avanço da praga e seus possíveis impactos sobre a pecuária e os preços da carne nos EUA.

As novas ocorrências envolvem um bezerro no condado de La Salle , um cachorro no condado de Andrews e uma cabra no Condado de Gillespie. Na última sexta-feira, 5, o USDA já havia confirmado um caso em um bezerro de um mês de idade no condado de Zavala. O USDA estima que a praga possa causar prejuízos de até US$ 1,8 bilhão à economia do Texas, um dos principais estados produtores de carne dos EUA.

O avanço da praga ocorre em um momento sensível para o governo americano, que busca conter a inflação dos alimentos. Um surto mais amplo poderia reduzir a oferta de gado e pressionar ainda mais os preços da carne bovina.

O preço da carne moída, principal matéria-prima dos hambúrgueres, atingiu o recorde de US$ 6,90 por libra-peso em abril, o maior valor da série histórica do Bureau of Labor Statistics (BLS), órgão responsável pelas estatísticas trabalhistas dos Estados Unidos.

O patamar representa quase o dobro do registrado há dez anos e uma alta de aproximadamente 20% em relação ao mesmo período do ano passado. Os preços da carne bovina nos EUA vêm acumulando sucessivos recordes. Desde 2020, a valorização chega a 75%, segundo dados do Federal Reserve de St. Louis.

Embora as autoridades afirmem que a situação está sob controle, o governo americano intensificou as medidas de contenção para evitar que a infestação se espalhe e afete ainda mais a produção de carne bovina no país, que enfrenta a pior crise de seu rebanho em 75 anos.

Segundo o USDA, o Serviço de Inspeção de Saúde Animal e Vegetal (APHIS) e seus parceiros estaduais continuam realizando coletas e análises em propriedades próximas aos focos. Até o momento, os demais testes apresentaram resultados negativos para a presença da praga.

A secretária de Agricultura dos Estados Unidos, Brooke Rollins, informou que milhões de moscas estéreis já estão sendo liberadas no Texas para interromper o ciclo reprodutivo do inseto.

Em fevereiro deste ano, o USDA anunciou a construção de uma fábrica no Texas para produzir moscas estéreis destinadas ao controle da bicheira-do-Novo-Mundo. O espaço recebeu im investimento de US$ 750 milhões e deve ser inaugurado até 2027.

Desde 4 de junho, o USDA realiza dispersões aéreas de 2 milhões de moscas estéreis duas vezes por semana sobre a área afetada. Paralelamente, outros 4 milhões de insetos estéreis são enviados semanalmente para distribuição em 24 pontos instalados dentro e ao redor da zona de detecção.

“Essa praga não representa um problema de segurança alimentar. O abastecimento de alimentos não está comprometido de forma alguma”, afirmou Rollins em entrevista a jornalistas na semana passada.

As moscas-varejeiras são parasitas cujas fêmeas depositam ovos em feridas abertas de animais. As larvas se alimentam de tecido vivo e, se não forem tratadas, podem levar o hospedeiro à morte.

A preocupação das autoridades está relacionada principalmente ao potencial impacto econômico da infestação. A mosca-varejeira-do-novo-mundo é considerada uma das principais ameaças sanitárias à pecuária porque suas larvas provocam lesões graves, perda de peso, redução da produtividade e, em casos extremos, a morte dos animais.

Na semana passada, cerca de 100 pecuaristas se reuniram no Texas para cobrar respostas mais rápidas das autoridades diante do avanço da mosca. Durante o encontro, produtores criticaram o que consideram uma reação lenta do governo federal e defenderam investimentos urgentes na produção de moscas estéreis, principal método de combate à praga.

Segundo a Reuters, alguns fazendeiros chegaram a propor a construção de uma fábrica privada de moscas estéreis. A preocupação é que uma infestação mais ampla coloque em risco a pecuária e a atividade de caça, fundamentais para a economia local.

Os produtores também reclamaram da falta de transparência do USDA, especialmente por não divulgar os locais exatos onde as moscas estéreis estão sendo liberadas.

Além disso, consideraram pouco práticas algumas recomendações do governo, como inspeções diárias nos animais e tratamentos preventivos, em razão da escassez de mão de obra e das grandes extensões das propriedades rurais. Segundo eles, faltam trabalhadores qualificados para implementar as medidas de controle sugeridas pelas autoridades.

Preço da carne

Segundo o USDA, os preços da proteína estão mais de 16% acima dos níveis registrados há um ano, tornando a carne bovina um dos principais símbolos da inflação persistente nos Estados Unidos, especialmente às vésperas da temporada de churrascos de verão.

A alta é resultado de uma combinação de fatores, como condições climáticas adversas, redução do rebanho bovino e a tarifa de 50% imposta pelo próprio governo Trump sobre a carne brasileira em julho de 2025.

Desde 2019, o número de cabeças de gado de corte caiu 13%, para 27,9 milhões. Já o rebanho bovino total dos Estados Unidos atingiu o menor nível desde 1952, segundo dados do Departamento de Agricultura dos EUA.

A seca prolongada no oeste americano agravou o cenário ao elevar os custos com ração e reduzir áreas de pastagem, levando produtores a liquidar parte dos rebanhos para preservar o caixa.

Em 2025, a produção americana de carne bovina recuou 4% em relação ao ano anterior, para 11,8 milhões de toneladas. Com isso, os Estados Unidos perderam para o Brasil a liderança global na produção da proteína.

No outono passado, o USDA lançou um plano para apoiar pecuaristas na expansão dos rebanhos, incluindo medidas para ampliar o acesso a áreas de pastagem. Mas, mesmo com a iniciativa, o ciclo pecuário exige tempo: entre o nascimento do bezerro e o abate, o processo pode levar de dois a três anos.

O aumento nos preços, inclusive, levou o Departamento de Justiça dos EUA a abrir uma investigação contra a JBS, Tyson Foods e Cargill para investigar possíveis abusos.

Apesar dos riscos, Rollins, do USDA, tenta minimizar os temores da praga sobre impactos significativos no mercado. Segundo a secretária, os avanços tecnológicos em monitoramento e controle tornaram o cenário atual muito diferente daquele enfrentado pelos Estados Unidos antes da erradicação da praga, na década de 1960.

“Estamos em uma situação muito diferente, que deve nos permitir detectar, confirmar e tratar os casos sem grandes impactos sobre o tamanho do rebanho e os preços da carne bovina”, afirmou.

Por outro lado, o avanço da praga já começa a gerar repercussões comerciais. A Agência Canadense de Inspeção de Alimentos (CFIA) informou que pretende adotar restrições temporárias à importação de animais provenientes das áreas afetadas dos Estados Unidos.

No Congresso americano, parlamentares republicanos demonstram preocupação com a possibilidade de a praga continuar avançando pela fronteira sul. “Tenho receio de que o cavalo já tenha saído da cocheira e que animais selvagens estejam trazendo a mosca-varejeira para dentro do país”, afirmou o senador Roger Marshall, do Kansas.

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