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Por que o preço dos fertilizantes não caiu — mesmo com cessar-fogo no Irã

Os aumentos nos preços têm afetado diretamente os agricultores, que enfrentam custos mais altos para a produção de milho

Aplicação de fertilizante no campo: a ureia, um dos fertilizantes mais dependentes do gás natural, também viu seu preço disparar.
 (Evaristo Sa/AFP/Getty Images)

Aplicação de fertilizante no campo: a ureia, um dos fertilizantes mais dependentes do gás natural, também viu seu preço disparar. (Evaristo Sa/AFP/Getty Images)

César H. S. Rezende
César H. S. Rezende

Repórter de agro e macroeconomia

Publicado em 2 de maio de 2026 às 08h00.

O cessar-fogo entre os Estados Unidos e o Irã não foi suficiente para derrubar o preço dos fertilizantes. Apesar da queda do preço do petróleo para menos de US$ 100 por barril, o que aliviou os mercados temerosos por uma guerra prolongada no Oriente Médio, os preços dos fertilizantes nos Estados Unidos não seguiram a mesma tendência. Pelo contrário, continuaram a subir.

Segundo pesquisa da Universidade de Illinois, o principal fator para essa discrepância está nas interrupções no transporte marítimo pelo Estreito de Ormuz, rota essencial para o fornecimento de gás natural e fertilizantes.

Por lá, passam cerca de 30% das remessas globais de fertilizantes, cerca de 20% do gás natural liquefeito e 27% do petróleo comercializado internacionalmente do Golfo Pérsico para mercados em todo o mundo, segundo um levantamento da Universidade de Purdue, em Illinois.

O estudo de Gerald Mashange e Grant Gardner aponta que a região depende do gás natural do Catar e dos Emirados Árabes Unidos, e que a queda no tráfego marítimo no final de fevereiro de 2026 teve um impacto imediato, com uma redução de 91,5% no número de navios que passavam pelo estreito, segundo dados do FMI.

Embora o cessar-fogo tenha promovido um pequeno aumento no tráfego após 8 de abril, a média de navios ainda ficou 88% abaixo dos níveis pré-conflito.

Esse cenário impediu a recuperação plena das rotas comerciais, refletindo diretamente nos preços dos fertilizantes. A amônia anidra, amplamente utilizado na agricultura, por exemplo, teve um aumento superior a 29%, e, na semana seguinte ao cessar-fogo, a alta foi de 2,4%.

A ureia, um dos fertilizantes mais dependentes do gás natural, também viu seu preço disparar. Em 13 de abril de 2026, o preço da ureia atingiu US$ 858 por tonelada, um aumento de 41,1% em relação a fevereiro.

"O gás natural é a principal matéria-prima para a produção de ureia, e qualquer interrupção no fornecimento impacta os preços de maneira significativa", afirmam os pesquisadores.

Os aumentos nos preços têm afetado diretamente os agricultores, que enfrentam custos mais altos para a produção de milho.

Mesmo com a antecipação da compra de fertilizantes, muitos ainda não conseguiram garantir todos os insumos necessários. Uma pesquisa da American Farm Bureau Federation (AFBF), principal entidade agrícola dos EUA. revelou que 67% dos agricultores do Centro-Oeste dos EUA conseguiram se antecipar à compra, mas no Sul, apenas 19% o fizeram.

Margens apertadas

A região do Golfo Pérsico é um importante polo de produção de nitrogênio e fosfato, insumos essenciais para o plantio de soja e milho.

Nos últimos três anos (2023-2025), os países do Golfo se consolidaram como o maior exportador regional de ureia e amônia (ambos à base de nitrogênio) e o segundo maior de fertilizantes fosfatados, como o fosfato diamônico (DAP) e o fosfato monoamônico (MAP).

Diante desse cenário, as relações de troca entre grãos e fertilizantes — ou seja, os preços relativos desses insumos — permanecem próximas das máximas históricas desde 2022, especialmente no caso de nitrogênio e fósforo, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos.

Mesmo com uma indústria mais desenvolvida que a brasileira, os Estados Unidos também dependem de fontes externas para insumos essenciais, especialmente o potássio.

Essa dependência, segundo estudo da Universidade de Purdue, ainda que em níveis distintos, “deixa a produção agrícola em ambos os países exposta a choques geopolíticos, custos mais elevados e margens de lucro menores para os agricultores”.

Além disso, diferentemente de 2022 — quando a alta dos custos de insumos foi acompanhada por uma forte valorização das commodities —, o cenário atual combina aumento nos preços dos fertilizantes com ganhos mais modestos em culturas como soja e milho.

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