EXAME Agro

'Pauta-bomba': Senado aprova renegociação de dívidas de grandes produtores rurais

Governo é contra a medida e prevê impacto fiscal estimado em R$ 817 bilhões para a União nos próximos 13 anos

Mateus Omena
Mateus Omena

Repórter

Publicado em 10 de junho de 2026 às 20h00.

Última atualização em 10 de junho de 2026 às 20h04.

Tudo sobreGoverno Lula
Saiba mais

O Senado Federal aprovou nesta quarta-feira, 10, um projeto de renegociação de dívidas de grandes produtores rurais, desconsiderando apelos do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A equipe econômica classifica a medida como uma pauta-bomba, com impacto fiscal estimado em R$ 817 bilhões para a União nos próximos 13 anos.

O dia no Senado também teve avanços em outras pautas com alto custo para os cofres públicos. Comissões aprovaram uma PEC (proposta de emenda à Constituição) que flexibiliza regras de aposentadoria de agentes comunitários de saúde e de combate a endemias, e um projeto que aumenta o piso salarial de médicos e cirurgiões-dentistas.

Na renegociação das dívidas rurais, o Senado afirma que o projeto permite tratar R$ 170 bilhões a R$ 180 bilhões em débitos, utilizando recursos do Fundo Social do Pré-sal. A equipe econômica, no entanto, estima que o valor real alcançado pode chegar a R$ 1,39 trilhão.

O texto aprovado sofreu alterações e, por isso, retornará à Câmara dos Deputados. Se os deputados aprovarem a versão modificada, o presidente Lula sinalizou intenção de veto; caso o veto seja derrubado, o governo avalia recorrer ao Supremo Tribunal Federal (STF).

Como foi a tramitação do projeto?

O relatório, sob a relatoria do senador Renan Calheiros (MDB-AL), havia sido aprovado na CAE (Comissão de Assuntos Econômicos) na última semana de maio, sem apoio do Ministério da Fazenda. Apenas o líder do governo, Jaques Wagner (PT-BA), votou contra.

O sistema financeiro manifestou preocupação, argumentando que condições favoráveis à renegociação podem gerar risco aos bancos.

Uma tentativa de adiamento da votação ocorreu em reunião entre o ministro Dario Durigan (Fazenda), Renan Calheiros e a senadora Tereza Cristina (PP-MS), no fim da tarde de quarta-feira. Na terça-feira, Durigan, Bruno Moretti (Planejamento) e José Guimarães (Relações Institucionais) pediram ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), que evitasse a aprovação de pautas-bomba.

Alcolumbre afirmou que não houve acordo entre senadores favoráveis ao projeto e o governo, mas decidiu manter a votação. "O ministro Durigan me informou que o texto não tem apoio do governo. No entanto, fiz um compromisso público com senadores e vou deliberar o relatório aprovado pela CAE", disse. Ele acrescentou que respeita a posição do governo, mas que os senadores aguardavam a deliberação há algum tempo.

O governo buscou reduzir o impacto fiscal propondo juros diferenciados: 6% para beneficiários do Pronaf (agricultura familiar), 8% para produtores do Pronamp (Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural) e 12% para os demais. O Senado, contrariando a Fazenda, aprovou 3,5%, 5,5% e 7,5%, respectivamente.

O projeto de Calheiros permite que a renegociação inclua operações contratadas até 31 de dezembro de 2025, vencidas ou a vencer. O limite de financiamento é de R$ 10 milhões por beneficiário e R$ 50 milhões por associação ou cooperativa. O pagamento ocorrerá em dez anos, com carência de três anos.

Inicialmente, a proposta visava apenas produtores afetados por calamidade pública, mas o escopo foi ampliado. O Ministério da Fazenda calcula que até R$ 1,39 trilhão em dívidas poderiam entrar na nova linha, incluindo crédito rural, CPRs (Cédulas de Produto Rural), contratos renegociados e financiamentos em atraso.

Ainda nesta quarta, a CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) aprovou a PEC que cria vínculos temporários e flexibiliza aposentadorias para agentes de saúde, com custo estimado de R$ 30 bilhões em 10 anos.

Na CAS (Comissão de Assuntos Sociais), foi aprovado o projeto que eleva o piso salarial de médicos e cirurgiões-dentistas para R$ 13,6 mil, para 20 horas semanais, com impacto estimado de R$ 47 bilhões. Mais cedo, a CAE também aprovou a PEC que concede autonomia financeira ao Banco Central, contrariando a posição do governo.

Acompanhe tudo sobre:AgriculturaSenado FederalGoverno LulaLuiz Inácio Lula da Silva

Mais de EXAME Agro

Tarifaço de Trump poupa tilápia e lagosta congelada, mas taxa lagosta viva; veja a lista

Problema do produtor de soja muda de fase: agora a pressão é sobre o lucro

O El Niño vai derrubar a produção de soja do Brasil? Para este banco, não

O Brasil pode ter uma nova ameaça que vem da China — e a 'vítima' é o frango