Carne bovina: o abate de bovinos aumentou 3,3% na comparação anual, enquanto o volume acumulado em 12 meses alcançou um recorde de 43,3 milhões de cabeças. (AAron Ontiveroz/MediaNews Group/The Denver Post/Getty Images)
Repórter de agro e macroeconomia
Publicado em 6 de julho de 2026 às 11h55.
Última atualização em 6 de julho de 2026 às 11h57.
O mercado brasileiro de boi gordo entrou no segundo semestre de 2026 sob o peso de uma velha dependência: a China. Depois de um junho forte nas exportações, o esgotamento da cota chinesa para a carne bovina brasileira mudou o humor da indústria, reduziu o ritmo de compras dos frigoríficos e pressionou os preços da arroba.
Segundo Fernando Iglesias, analista da Safras & Mercados, o Brasil embarcou em junho 158,36 mil toneladas de carne bovina ao mercado chinês, o maior volume mensal do ano. “Isso representa quase 14,3% da cota que a China disponibilizou ao Brasil e um crescimento de 17,8% quando comparamos a 2025”, afirma.
Com esse desempenho, a cota foi praticamente consumida. “O Brasil já estourou a cota em 0,06%. Então, o sentimento que temos é que essa atuação recente das indústrias, limitando o abate, reduzindo o abate e oferecendo férias coletivas, está alinhada com esse ambiente”, diz Iglesias.
Em dezembro de 2025, a China fixou uma cota anual importação de carne bovina de 2,7 milhões de toneladas. Para o Brasil, o limite sem tarifa foi estipulado em 1,1 milhão de toneladas — uma redução de quase 600 mil toneladas em relação ao volume exportado ao país no último ano.
No ano passado, o mercado brasileiro enviou 1,7 milhão de toneladas de carne bovina à China — o equivalente a 48,3% do volume embarcado, segundo dados da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec).
Embora o volume embarcado pelo Brasil já seja suficiente para consumir praticamente toda a cota chinesa, há um intervalo entre o embarque e a chegada da carga ao destino. Segundo Roberto Perosa, presidente da Abiec, esse detalhe explica por que a China ainda não contabiliza oficialmente o esgotamento do limite.
"A gente teve o último mês formal de exportação para a China agora em meados de junho. O que o Brasil já enviou praticamente atingiu a cota, mas, na contabilidade da China, ela ainda não chegou ao valor da cota porque existe um período entre a saída do Brasil e a chegada na China, que varia entre 40 e 60 dias. Até lá, essa cota estará atingida", diz.
Perosa explica que, por esse motivo, as indústrias já interromperam a produção destinada ao mercado chinês. "As exportações pararam para a China porque nós paramos de produzir o animal para a China e devem ser retomadas mais à frente, quando o mercado assim entender", afirma.
No primeiro semestre de 2026, as exportações brasileiras de carne bovina somaram 1,7 milhão de toneladas, alta 15,5% em relação ao mesmo período do ano passado. A receita alcançou US$ 9,85 bilhões, crescimento de 36,2% na comparação com o mesmo semestre de 2025, mostram dados da Abiec.
Na leitura do BTG Pactual (do mesmo grupo de controle da EXAME), a queda recente da arroba decorre principalmente desse ajuste temporário nas exportações para a China, e não de uma deterioração estrutural da demanda global por carne bovina.
O banco afirma que a proximidade do esgotamento da cota chinesa reduziu as compras da indústria exportadora, alongou escalas de abate, levou algumas plantas a conceder férias coletivas e aumentou o direcionamento da produção ao mercado doméstico.
O problema, portanto, não é falta de demanda por carne brasileira, mas uma trava comercial que muda o fluxo das compras no curto prazo.
Para Iglesias, se não houver flexibilização por parte da China, com acesso a cotas de outros países, como Uruguai, Argentina, Nova Zelândia e Estados Unidos, o terceiro trimestre deve seguir o roteiro já esperado.
“Meses de julho, agosto e setembro de pressão de queda sobre os preços da arroba e um fluxo de exportação mais lento”, diz.
O cenário ganha uma camada adicional de preocupação porque a China não é o único mercado a criar ruído para a carne brasileira. Iglesias cita também os Estados Unidos e a União Europeia como fontes de pressão.
Apesar da pressão de curto prazo, o BTG vê o mercado entrando em uma nova fase. Enquanto o noticiário segue concentrado na China, os fundamentos domésticos apontam para menor disponibilidade de animais no segundo semestre.
O relatório cita desaceleração dos abates de fêmeas, redução da oferta de machos e perda de intensidade no processo de liquidação do rebanho.
A curva futura já parece capturar essa virada. Segundo o BTG, os contratos de curto prazo seguem sensíveis às incertezas das exportações, mas os vencimentos do quarto trimestre incorporam maior aperto de oferta na entressafra, sazonalidade positiva da demanda e normalização parcial do fluxo exportador.
O contrato de dezembro de 2026 já embute prêmio de R$ 22 por arroba sobre julho, diz o relatório. Iglesias, da Safras & Mercado, tem leitura semelhante para o fim do ano.
"Para o último trimestre, com a volta da China ao mercado, pensando na cota de 2027, com o menor incentivo ao confinamento para o período, com o auge do consumo no mercado interno e ainda uma boa demanda dos Estados Unidos, haverá muitos elementos para uma alta bem consistente dos preços pecuários no Brasil", diz.
O principal fator que pode mudar esse cenário é o volume de animais enviados aos confinamentos. Se os pecuaristas confinarem mais bois do que o esperado na segunda rodada do ano, haverá maior oferta de animais para abate, o que tende a limitar uma alta mais rápida da arroba.
Por outro lado, se o confinamento ficar abaixo do esperado, a oferta pode encolher no quarto trimestre, favorecendo uma valorização mais intensa dos preços.