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Crise da carne bovina nos EUA está longe do fim — e 2027 preocupa frigoríficos

BTG vê melhora sazonal nas margens, mas alerta que falta de boi deve seguir pressionando frigoríficos até o próximo ano

Carne bovina: para o BTG, a alta dos preços parece mais uma normalização após uma temporada de churrascos particularmente fraca do que o início de uma nova fase para o setor. (Freepik/Divulgação)

Carne bovina: para o BTG, a alta dos preços parece mais uma normalização após uma temporada de churrascos particularmente fraca do que o início de uma nova fase para o setor. (Freepik/Divulgação)

César H. S. Rezende
César H. S. Rezende

Repórter de agro e macroeconomia

Publicado em 27 de agosto de 2026 às 06h00.

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A recuperação das margens dos frigoríficos nos Estados Unidos pode sugerir que o pior do ciclo da carne bovina ficou para trás. Para o BTG Pactual (do mesmo grupo de controle da EXAME), porém, essa leitura é prematura. O banco avalia que a melhora das últimas semanas está ligada principalmente a fatores sazonais e ajustes de capacidade, enquanto a escassez de gado ainda impede uma recuperação estrutural do setor.

O cenário exige atenção especialmente para 2027, quando a reconstrução do rebanho pode reduzir ainda mais a disponibilidade de animais para abate. “Os spreads estão melhores; o ciclo, não”, afirmam os analistas Thiago Duarte e Guilherme Guttilla.

A melhora veio acompanhada de uma forte recuperação dos chamados cutout spreads, indicador usado pelo BTG como referência antecipada das margens de processamento de carne bovina. O histórico, no entanto, mostra que boa parte da alta pode ser explicada pelo calendário americano.

Nos 30 dias anteriores ao Labor Day, os preços da carne bovina subiram em 17 dos últimos 22 anos, com avanço médio de 3,9%. Nos 30 dias seguintes ao feriado, caíram em 17 desses 22 anos, com recuo médio de 4,8%. Historicamente, o pico ocorre cerca de duas semanas antes da data, quando os varejistas antecipam as compras.

Celebrado na primeira segunda-feira de setembro, o Labor Day marca um dos últimos grandes momentos da temporada de churrascos do verão americano e costuma elevar a demanda do varejo por carnes. Neste ano, o feriado será em 7 de setembro.

Na avaliação do BTG, a alta dos preços reflete mais uma normalização após uma temporada de churrascos fraca do que uma mudança no ciclo do setor.

O fechamento inesperado da unidade de Joslin, da Tyson Foods, em 13 de agosto, com capacidade de cerca de 3 mil cabeças por dia, reforçou o movimento, mas não foi seu principal gatilho. Os preços já avançavam antes do anúncio.

“Não iríamos tão longe a ponto de chamar isso de uma virada no ciclo do gado nos Estados Unidos”, dizem os analistas.

As condições das pastagens também ajudam a explicar o alívio de curto prazo. Em agosto, 48% das áreas de pasto e criação nos EUA eram classificadas como ruins ou muito ruins, ante 31% no ano anterior.

Com menos alimento disponível, piora a viabilidade econômica de manter os animais no campo, o que pode antecipar sua chegada aos frigoríficos.

Isso aumenta temporariamente a disponibilidade de gado para abate e favorece as margens. Em contrapartida, pode desestimular a retenção de novilhas e atrasar a reconstrução do rebanho, prolongando a escassez de animais.

Parte desse alívio também deve perder força. As compras para o Labor Day estão próximas do fim, enquanto a entrada sem tarifa de até 300 mil toneladas de carne bovina por 90 dias pode ampliar a oferta e pressionar os preços domésticos.

As importações de gado do México também devem aumentar a oferta, mas gradualmente. Para o BTG, mesmo a normalização desses fluxos traria alívio, não uma solução para a baixa utilização da capacidade dos frigoríficos americanos.

Os frigoríficos americanos enfrentam um dos períodos mais difíceis do ciclo pecuário nos Estados Unidos, marcado pela menor disponibilidade de animais, aumento dos custos e margens apertadas.

Desde 2019, o número de cabeças de gado de corte caiu 13%, para 27,9 milhões. Já o rebanho bovino total dos EUA atingiu o menor nível desde 1952, segundo dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA).

A seca prolongada no oeste americano agravou o cenário ao elevar os custos com ração e reduzir as áreas de pastagem, levando produtores a liquidar parte dos rebanhos para preservar o caixa.

Em 2025, a produção americana de carne bovina recuou 4% em relação ao ano anterior, para 11,8 milhões de toneladas. Com isso, os Estados Unidos perderam para o Brasil a liderança global na produção da proteína.

As restrições sanitárias impostas às importações de gado do México, um dos principais fornecedores dos Estados Unidos, em razão do avanço da bicheira-do-Novo-Mundo, adicionaram pressão à disponibilidade de animais no país.

O resultado é alta nos preços da carne bovina. Desde 2020, a valorização chega a 75%, segundo dados do Federal Reserve de St. Louis. Segundo o USDA, os preços da proteína estão 16% acima dos níveis registrados há um ano, tornando a carne bovina um dos principais símbolos da inflação persistente no país, especialmente às vésperas da temporada de churrascos de verão.

Frigoríficos nos EUA

O cenário pode ficar ainda mais apertado em 2027. Embora os frigoríficos estejam reduzindo capacidade para se adaptar à escassez de animais, o BTG avalia que a própria reconstrução do rebanho deve limitar uma recuperação mais forte das margens.

Para que o número de animais volte a crescer, os produtores precisam reter mais fêmeas e reduzir o abate de novilhas. A estratégia aumenta a oferta de gado no futuro, mas, antes disso, reduz o número de animais disponíveis para os frigoríficos.

Segundo o BTG, esse movimento poderia retirar quase 4 pontos percentuais da utilização da capacidade da indústria em 2027. Mesmo com importações mais fortes de gado do México, a taxa chegaria a cerca de 86%, ainda abaixo dos níveis superiores a 90% registrados em 2023 e 2024.

Os cortes de capacidade feitos pela indústria ajudam a compensar essa menor oferta, mas não resolvem o desequilíbrio. O banco cita os fechamentos das unidades de Lexington e Joslin, da Tyson Foods, a interrupção do abate da JBS em Souderton e a redução anterior da operação da Tyson em Amarillo.

“Os frigoríficos estão, em grande medida, fechando plantas para acompanhar a queda da oferta de gado, em vez de criar uma verdadeira escassez de capacidade”, afirmam os analistas do BTG.

A dinâmica torna 2027 particularmente delicado. A retenção de fêmeas parece ter começado, segundo o banco, mas ainda está distante dos níveis observados no fundo do ciclo anterior. Na prática, a reconstrução do rebanho pode apertar ainda mais a oferta para abate antes de trazer alívio.

“Os ciclos do gado podem ser contraintuitivos. O ano mais difícil para os frigoríficos costuma ocorrer perto do fim da fase de retenção, e não no começo”, dizem Thiago Duarte e Guilherme Guttilla, em tradução livre.

Por isso, o BTG vê risco de o mercado antecipar a recuperação do setor. A melhora recente dos spreads e o desempenho das ações de proteínas aumentaram as expectativas de normalização das margens, mas o banco não descarta revisões negativas de lucro antes de uma recuperação mais consistente.

A cautela aparece também na avaliação da Tyson Foods. O BTG mantém recomendação de venda para a companhia e aponta a volatilidade das margens provocada pelos ciclos de proteínas como um dos principais riscos para o negócio.

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