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Como a pesca criou um setor de 516 milhões de euros na maior ilha do mundo

Setor de pescados é a principal fonte de receita da economia da ilha — representando mais de 90% das exportações

Pesca na Groenlândia: setor emprega 15% da força de trabalho da Groenlândia e é o principal empregador do setor privado (Lawrence Hislop/Flickr)

Pesca na Groenlândia: setor emprega 15% da força de trabalho da Groenlândia e é o principal empregador do setor privado (Lawrence Hislop/Flickr)

César H. S. Rezende
César H. S. Rezende

Repórter de agro e macroeconomia

Publicado em 24 de janeiro de 2026 às 06h01.

A possível mudança no status político da Groenlândia, a maior ilha do mundo, pode provocar mudanças no setor pesqueiro global. A avaliação é de German Zverev, presidente da Associação de Empresas Pesqueiras da Rússia. Na Groenlândia, o setor de pescados é um negócio que movimenta 516 milhões de euros por ano, segundo dados da União Europeia.

Para o executivo, caso o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reivindique a região como parte dos EUA, a reconfiguração pode esvaziar o sentido de decisões tomadas por certas organizações internacionais de pesca e criaria um “efeito bumerangue inesperado”. Atualmente, a ilha é parte da Dinamarca, e é um território autônomo.

“A possível mudança no status político da Groenlândia trará mudanças tectônicas para o segmento global da pesca. A zona econômica exclusiva dos EUA será ampliada e passará a ocupar áreas onde hoje atuam países da União Europeia e a Islândia”, disse.

A declaração ocorre em meio à disputa envolvendo Donald Trump, que quer tomar a ilha. Na quinta-feira, 22, o republicano afirmou que os EUA estão em negociação para garantir “acesso total” à Groenlândia. A ilha possui mais de 2 milhões de km² e se estende por cerca de 2.670 km de norte a sul e mais de 1.050 km de leste a oeste em seu ponto mais largo, segundo a Encyclopaedia Britannica.

Com base em recursos naturais marinhos, especialmente o camarão-do-norte, o alabote-da-Groenlândia e o bacalhau-do-Atlântico, o setor de pescados se consolidou como a principal fonte de receita da economia groenlandesa — representando mais de 90% das exportações em 2024 (dado mais atualizado) e cerca de 25% do Produto Interno Bruto (PIB) da ilha.

Hoje, a pesca emprega 15% da força de trabalho da Groenlândia e é o principal empregador do setor privado.

A trajetória econômica que transformou a pesca artesanal de subsistência em um motor industrial de larga escala é marcada por políticas públicas, incentivos da Dinamarca e reorganizações internas que priorizaram a autossuficiência da maior ilha do planeta.

Com uma captura de aproximadamente 244 mil toneladas, os três principais produtos — camarão (48%), bacalhau (23%) e alabote (22%) — respondem por 87% do valor total exportado.

A União Europeia é o principal destino desses embarques, beneficiada por isenções tarifárias e por um acordo de cooperação que garante um aporte anual de 17,3 milhões de euros à Groenlândia até 2030.

Pesca na Groenlândia

A atividade pesqueira na Groenlândia tem origem ancestral, com os povos paleo-inuítes, como os Saqqaq, que viviam da caça e da pesca de subsistência no Ártico, segundo estudo da Universidade da Groenlândia.

A pesca só passou a integrar os fluxos comerciais no século XX, com o domínio dinamarquês e a criação de entrepostos. A virada para o modelo industrial ocorreu no pós-guerra, com a introdução de embarcações motorizadas e fábricas de processamento.

A descoberta de grandes estoques de camarão-do-norte, nos anos 1950, impulsionou a indústria, elevando a produção para mais de 100 mil toneladas na década de 1980. Mesmo com o avanço da industrialização, o setor costeiro ainda abriga práticas tradicionais e comunidades que operam com pequenas embarcações.

Para boa parte da população rural, a pesca continua inserida em um modelo econômico misto, que combina caça, coleta e geração de renda mínima — prática que também garante a segurança alimentar em regiões isoladas.

“O modo de vida baseado na autossuficiência ainda é o preferido por parte da população. Isso tem valor econômico e social”, aponta a pesquisadora Siv Reithe, da Universidade Ártica da Noruega, em relatório do projeto ECOTIP.

A gestão da atividade pesqueira é coordenada pelo Ministério da Pesca e da Caça. Um dos principais desafios é o estado de sobrepesca em determinadas áreas, como nas reservas de camarão-do-norte.

A sobrepesca representa a exploração intensiva de espécies-chave, o que tem gerado pressão para a redução de cotas de exportação e alertas científicos sobre o risco de colapso de algumas populações, especialmente a do alabote-da-Groenlândia.

A nova Lei das Pescas, em vigor desde 2025, tenta reverter esse cenário. Entre as medidas, exige que as licenças de pesca sejam 100% controladas por groenlandeses e impõe limites mais rígidos para a pesca em alto-mar.

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