Política Agrícola Comum: batatas e uma placa com os dizeres "Uma Política Agrícola Comum (PAC) forte é igual a segurança alimentar" perto do Parlamento Europeu, durante um protesto de agricultores contra as reformas da Política Agrícola Comum (PAC) e acordos comerciais como o Mercosul, em Bruxelas (Nicolas Tucat/AFP/AFP)
Repórter de agro e macroeconomia
Publicado em 7 de janeiro de 2026 às 17h59.
Apesar do pacote de 45 bilhões de euros anunciados pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, para apoiar o agronegócio da União Europeia, os produtores rurais da França seguem contrários à assinatura do acordo entre o bloco e o Mercosul.
Nesta quarta-feira, 7, Arnaud Rousseau, presidente da Federação Nacional dos Sindicatos de Agricultores (FNSEA) — principal entidade que representa os produtores franceses — rechaçou o plano de Von der Leyen e afirmou que o setor agrícola carece de uma direção clara.
“Hoje, não existe uma visão europeia nem nacional para a agricultura. Não sabemos para onde estamos indo. Falta rumo”, disse Rousseau em entrevista.
A França, ao lado da Polônia, é uma das principais barreiras para que o tratado com o Mercosul — formado por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai — seja aprovado. Agricultores franceses alegam que o setor agrícola europeu perderá competitividade frente às commodities do Mercosul, especialmente as brasileiras, mais baratas.
Ainda assim, estimativas da própria Comissão Europeia indicam que as exportações agroalimentares do bloco para os países sul-americanos devem crescer 50%, impulsionadas pela redução de tarifas sobre produtos como vinhos e bebidas alcoólicas (até 35%), chocolate (20%) e azeite (10%).
Também nesta quarta-feira, ministros da Agricultura da UE se reuniram em Bruxelas, na Bélgica, para discutir os impasses que travam o avanço do tratado. O encontro, porém, terminou sem coletiva de imprensa ou anúncio oficial, mantendo o clima de incerteza.
Na prática, o acordo comercial é impulsionado pelos grandes fabricantes europeus, interessados em ampliar vendas de automóveis, máquinas e produtos químicos na América Latina.
Em contrapartida, os países do Mercosul buscam ampliar o acesso de alimentos ao mercado europeu — uma possibilidade que preocupa os produtores locais, especialmente os franceses.
Em uma carta enviada à presidência do Conselho Europeu e à presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola, Von der Leyen prometeu acesso antecipado a até 45 bilhões de euros em financiamentos agrícolas no próximo orçamento plurianual da UE (2028–2034), além de reafirmar os 293,7 bilhões de euros já previstos para o setor após 2027.
Segundo a presidente da Comissão Europeia, as medidas dariam aos agricultores e comunidades rurais "um nível de apoio sem precedentes", em alguns casos superior ao do atual ciclo orçamentário.
O recurso não é novo, mas representa uma antecipação dos fundos já reservados. A ideia é permitir que os governos nacionais assegurem os valores para seus produtores antes que as verbas sejam redirecionadas em futuras negociações.
O principal alvo da proposta é a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, que tem adotado uma postura hesitante quanto ao acordo. A expectativa em Bruxelas é de que o gesto de von der Leyen funcione como um trunfo político para Meloni diante da pressão do setor agrícola em seu país.
Em mais um gesto para sinalizar o distanciamento em relação ao agronegócio da América do Sul, a ministra da Agricultura da França, Annie Genevard, suspendeu temporariamente as importações de determinados produtos agrícolas tratados com substâncias proibidas na UE, vindos principalmente da América do Sul.
A decisão ocorre em meio à crescente insatisfação do setor agrícola francês com o acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul. Para atender às demandas dos produtores, o governo francês já havia anunciado no domingo, 4, a suspensão de parte dessas importações. A medida entra em vigor nesta quinta-feira, 8, com validade inicial de um ano.
Em paralelo, a primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, divulgou uma declaração afirmando que a promessa de financiamento agrícola anunciada por Ursula von der Leyen representa “um passo positivo e significativo nas negociações para o novo orçamento da União Europeia”.
Meloni, no entanto, evitou vincular a iniciativa diretamente ao acordo com o Mercosul, afirmou o site Político.
O presidente francês, Emmanuel Macron, também saudou a carta enviada por von der Leyen aos líderes europeus, mas, assim como Meloni, não sinalizou apoio à ratificação do acordo. Até o momento, não há expectativa de que Paris endosse a proposta na votação prevista para sexta-feira, 9.